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Cotas, fotografias e vozes dissonantes

23/10/2007

Ana Lúcia Valente

Há poucos dias, foi decidido que, a partir do primeiro vestibular de 2008, será adotada na UnB (Universidade de Brasília) a entrevista pessoal para homologar as inscrições dos candidatos às cotas no lugar da avaliação de fotografias. A iniciativa aperfeiçoou um sistema que envolveu diferentes atores e desencadeou um proveitoso processo educativo. Infelizmente, a tendência tem sido a de banalizar a experiência e, os meios de comunicação noticiam fatos de importância secundária. Vozes dissonantes, muitas com credenciais acadêmicas, contribuem para isso ao afirmarem ser essa instituição de ensino superior uma "fábrica do racismo", que pretende produzir a bipartição racial da nação. São vozes que ganham projeção, mesmo que pesquisas recentes desmintam esse prognóstico.

A utilização das fotografias no processo de seleção de candidatos às cotas para negros na UnB foi duramente criticada e intERP retada equivocadamente como peça-chave de um suposto "veredicto do tribunal racial". Entretanto, sem merecer igual reação, fotografias foram empregadas como recurso metodológico da pesquisa quantitativa que o cientista político Alberto Carlos Almeida desenvolveu para compor parte do livro "A cabeça do brasileiro" (2007), que também discute o preconceito racial e a política de cotas para negros. Valendo-se de uma metodologia indireta, empregou fotos de pessoas diferentes, formando uma escala de cores e amostras divididas.

O autor tem razão ao afirmar que existem controvérsias acerca dessa metodologia, que encontra resistência entre alguns antropólogos - apesar de serem formados para respeitar a pluralidade. Coerente com essa formação, não pretendo me imiscuir nesse debate. Apenas destaco que os dados obtidos e quantificados - sempre muito valorizados como expressão de objetividade científica - mostram que os estudiosos que se dedicaram a pesquisar as relações raciais e interétnicas no país jamais estiveram movidos por delírios ou fantasias. Para estes, nunca se sustentaram as idéias que advogam a inexistência de racismo no Brasil. Embora tenham negligenciado a expressão numérica e o gradiente de cor da população negra mestiça - importantes para a definição do público alvo de políticas de ação afirmativa -, os dados de Almeida atestam que há discriminação com negros e pardos. Conclui: "são os brasileiros que se declaram racistas. E não necessariamente cordiais".

Também sobre a questão das cotas, não há consenso entre os antropólogos. Do mesmo modo, essa diversidade deve ser respeitada. Porém uma ressalva precisa ser feita: a "má vontade" daqueles que são contrários a elas - descartando a ação afirmativa em si, sem a preocupação de propor alternativas ao combate das desigualdades - extrapola a racionalidade por politizar em demasia um debate carregado de emoções.

Pessoas pouco familiarizadas com o conhecimento acumulado sobre as relações entre negros e brancos no Brasil aceitam o argumento de que "não somos racistas". Essa idéia atualiza a afirmação de Florestan Fernandes, para quem o brasileiro tem preconceito de ter preconceito. Mas há muito se discutiu que essas relações são: questão social, hegemônica numa sociedade de classes, e questão de "raça", no tocante à construção social balizada no fenótipo. Confundem-se as linhas de classe e de cor no país. Por isso, retomar a velha controvérsia de que o principal problema é relativo à classe social denuncia o desconhecimento da realidade complexa.

É uma falsa questão contrapor as políticas afirmativas de caráter universal e específico, nos diferentes níveis de ensino, como se excludentes fossem. As primeiras não têm obtido o sucesso almejado porque não vêm sendo articuladas às ações específicas. Essa relação foi percebida por Almeida que registrou um grande consenso a favor de cotas, embora percentual maior aprove as políticas de redução da pobreza. No tocante às cotas para negros no ensino superior, 87% da população é favorável, indicativo que mostra esse nível de formação como propício para o combate à desigualdade e capaz de criar oportunidades que permitam diminuir as distâncias sociais.

Diante desses e de outros dados, o que se passa na cabeça dos donos das vozes dissonantes? Para Almeida, a sociedade brasileira não é monolítica: divide-se entre o moderno e o arcaico. Ele diz que para superar esse dualismo é preciso que "a grande massa da população de escolaridade baixa (que) não expressa os valores democráticos e igualitários" passe pelas salas de aula. À luz dessa sinalização, a resposta pode ser: a mentalidade arcaica também encontra eco entre os mais escolarizados, por vezes travestidos de modernos e defensores da democracia. A visão hierárquica do mundo, o patrimonialismo, o conservadorismo e o preconceito ali se escondem.

Ana Lúcia Valente é professora na Faculdade de Agronomia e Medicina Veterinária da UnB (Universidade de Brasília). É doutora em antropologia social pela USP (Universidade de São Paulo). Publicou os livros "Ser negro no Brasil hoje" (2002) e "Educação e diversidade cultural - um desafio da atualidade" (1999).

Foto: Roberto Fleury/ UnB Agência

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