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Os gurus do Apocalipse

27/03/2009 - Não há crise para os palestrantes internacionais que falam sobre a crise. Segundo empresas que organizam eventos corporativos no Brasil, é duro o trabalho para trazer um economista medalhão ao país. E o principal problema não é tanto o cachê que eles cobram - mas descobrir um dia livre na agenda dos conferencistas. Neste ano, Nouriel Roubini reaparece em São Paulo, no mês que vem; Paul Krugman, Prêmio Nobel de Economia de 2008, fala em novembro; e Gary Becker, Nobel 1992, é a estrela de um seminário em Santa Catarina, em junho.

Na verdade, a recessão econômica tem ajudado grandes economistas, pródigos em alertar sobre as gorduras do mercado financeiro, a forrar suas aposentadorias. O cachê de um palestrante internacional é estimado entre US$ 40 mil e US$ 50 mil por evento. Mas a presença de um Nobel no currículo faz esse passe ultrapassar US$ 100 mil.

Palestrantes considerados top, como o ex-presidente americano Bill Clinton, só arrumam a mala se o pacote incluir um jato exclusivo e passagens para a equipe de assessores. Viagens à Amazônia, um tour pelas praias brasileiras e reuniões com empresários locais também ajudam os conferencistas - a maioria trabalha como consultores financeiros e de gestão - a dizer sim.
AP Nouriel Roubini, que esteve no Brasil no início do mês: informações do mercado dão conta de que o cachê do economista triplicou de dezembro de 2008 a fevereiro de 2009

Economista turco residente nos Estados Unidos, Roubini virá em 13 de abril. É convidado da empresa Canal Executivo, que realiza seminários corporativos e inaugura com ele uma etapa de grandes palestras com gurus da economia.

Roubini é considerado a bola da vez dos auditórios internacionais desde que antecipou a crise econômica de 2008 em 2006. Foi batizado pelo jornal "The New York Times" como "visionário" e "Doutor Apocalipse". Conseguiu profetizar a quebra do banco de investimentos Bear Stearns e tem aparecido frequentemente no Brasil.

No início do mês, foi uma das cerejas do bolo de um seminário em São Paulo que marcou o lançamento institucional da BTG Investments, firma de investimentos do economista Persio Arida, ex-presidente do Banco Central, e do banqueiro André Esteves, ex-UBS. Mais de 300 convidados silenciaram para ouvir Roubini falar ao lado do professor Frederic Mishkin, da Columbia School of Business, ex-diretor do Fed, o banco central americano.

"Nos dois primeiros dias de inscrições para a palestra de Roubini, recebemos mais de 300 telefonemas de interessados no encontro", diz Ângelo Freitas, diretor-presidente do Canal Executivo, no mercado de eventos desde 1994. No ano passado, a empresa realizou mais de cem apresentações - 60% foram seminários para executivos de alto perfil e 40% da agenda foi dividida entre treinamentos e conferências. Até agosto, pipocaram temas como abertura de capital, fusões e aquisições. "Com a crise, esses assuntos saíram da pauta."
AP Nouriel Roubini, que esteve no Brasil no início do mês: informações do mercado dão conta de que o cachê do economista triplicou de dezembro de 2008 a fevereiro de 2009

Para este ano, Freitas aposta em programas sobre captação de recursos, corte de despesas e cargas tributárias. "A meta é aumentar em 100% o número de eventos em comparação a 2009." Para o encontro com Roubini, um lugar na plateia custa R$ 2.930, com direito a coffee-break e estacionamento - são esperadas mil pessoas.

Além da crise global e dos respectivos baques na economia brasileira, a conferência - que tem o RGE Monitor, site de consultoria econômica de Roubini, como um dos realizadores - vai analisar o primeiro trimestre do governo de Barack Obama e a volta do protecionismo aos países desenvolvidos. Além do Brasil, já há inscritos do Canadá, Chile, Argentina e Portugal.

A negociação para a palestra de Roubini começou no fim do ano. Informações do mercado dão conta de que o cachê do economista triplicou de dezembro de 2008 a fevereiro de 2009 - por causa de suas previsões exatas sobre a ressaca mundial - e ele não sai de casa por menos de US$ 120 mil.

Ao chegar a São Paulo, Roubini segue de helicóptero do aeroporto de Cumbica direto para o local da palestra, encerra o expediente com um jantar fechado e volta para Nova York, onde mora, na mesma noite.

Outro mago da macroeconomia com viagem marcada para o Brasil é o Nobel 2008 Paul Krugman, também colunista do "New York Times". Ele vai falar em novembro sobre a repercussão da crise na América Latina durante a ExpoManagement 2009, evento que é carro-chefe da HSM, empresa de conhecimento de gestão que faturou R$ 45 milhões no Brasil, no ano passado - mais da metade captada com seminários e palestras.

"Vamos crescer 10% até dezembro, mesmo com a recessão", afirma Marcos Braga, presidente da HSM no Brasil. A companhia foi criada há mais de 20 anos e trouxe, pela primeira vez ao país, nomes como Don Peppers, Philip Kotler e Tom Peters. "Dias antes do evento confirmado, no início da década de 90, Peters pensou em desistir e tivemos de ir a Boston para convencê-lo a não quebrar o contrato", lembra. "O que usamos para trazê-lo? Muita lábia."

Na vez de Rudolph Giuliani palestrar no Brasil em 2005, o terrorismo não saía da cabeça dos americanos em razão dos ataques ao World Trade Center, em Nova York. O ex-prefeito da cidade aceitou o convite, mas pediu segurança. Veio com três guarda-costas dos Estados Unidos e a HSM contratou mais quatro no país. Deve ter aprovado a comitiva blindada: voltará no fim deste ano para uma nova palestra sobre liderança.

Em 2008, Henry Mintzberg, autor do livro de cabeceira gerencial "Ascensão e Queda do Planejamento Estratégico", também aterrissou por aqui e ganhou viagem de uma semana pela Amazônia, com direito à companhia da mulher. "Não foi uma exigência dele, foi um presente nosso", conta Braga.

Para o indiano C.K. Prahalad, especialista em estratégia empresarial, o passeio foi mais curto. Em 2005, ele pediu para visitar a Casas Bahia, um dos cases do seu livro "A Riqueza na Base da Pirâmide - Como Erradicar a Pobreza com Lucro", sobre o potencial dos mercados de baixa renda em países populosos.

Em média, o cachê de convidados internacionais em eventos corporativos no Brasil varia de US$ 40 mil a US$ 50 mil, com alguns picos. Sabe-se que o pró-labore de Krugman, depois de ganhar o Nobel de Economia no ano passado, engordou, e que Bill Clinton, marido da atual secretária de Estado dos EUA, continua na ponta do ranking de palestrantes. "Clinton prefere viajar em um jato exclusivo e com uma equipe de assessores", diz Alonso Torres, diretor-presidente da ExpoGestão 2009, que é realizada há seis anos em Joinville (SC).

A palestra do ex-presidente americano é cotada em US$ 425 mil. Só em 2007, foram marcadas 54, com uma receita total de US$ 10,1 milhões. A maioria dos conferencistas pede que o depósito seja feito sem descontos e a tributação sobre a remessa do valor também saia do bolso do organizador. Todos os economistas trabalham com agentes, que tomam conta do roteiro das viagens e dos detalhes de contrato - como cláusulas de confidencialidade sobre o montante a ser pago.

Há quase um ano, Torres planeja a visita do professor da Universidade de Chicago e Nobel de Economia 1992, Gary Becker. Ele finalmente pega o microfone em 19 de junho, em Santa Catarina. "Vem com a mulher e deve passar um fim de semana em um resort no litoral."

Torres, que já contratou o ex-ministro do Trabalho do Reino Unido, John Gummer, e o defensor do ócio criativo Domenico De Masi, tentou trazer Krugman, mas o calendário do economista parece sempre engarrafado. "O mercado está muito bom para os palestrantes de economia", avalia.

Outro que continua no time de ouro das palestras internacionais é Michael Porter, economista e professor da Harvard Business School. "Ele conseguiu reunir mais de 4 mil pessoas em um evento no ano passado, sendo 1,1 mil somente de presidentes de empresas", lembra Braga, da HSM.

A receita para garimpar conferencistas mundo afora combina um trabalho de pesquisa com executivos no Brasil para determinar tendências, listas de nomes conhecidos do cenário mundial e as revelações das livrarias, como Jeffrey Thull, autor de "Gestão de Vendas Complexas: Como Competir e Vencer quando o Resultado Desejado Pode Ser Alto", que esteve no Brasil em 2007.

Apesar da atratividade do assunto "crise", Braga não acredita que os seminários corporativos vão pegar carona nos pajés do subprime. No ano passado, ele chamou Joseph Stiglitz, professor de economia da Columbia University, vice-presidente do Banco Mundial na administração Clinton e Nobel 2001 - além de inimigo declarado do FMI. Por coincidência, era o novembro negro, aquele que os bancos jamais esquecerão. "Mas todos os eventos são programados com um ano de antecedência", justifica.

Na época, no plenário do Transamérica Expo Center, em São Paulo, Stiglitz despachou para casa uma plateia assustada. "O futuro é sombrio e a tempestade está apenas começando", disse. Hoje, o especialista faz parte do casting do Speakers Associates, empresa baseada na Inglaterra que organiza palestras em todo o mundo.

Os mais de 400 conferencistas da companhia são divididos em 27 categorias, que vão de esportes e finanças a ícones de países do Bric (Brasil, Rússia, Índia e China). "O professor Stiglitz anda muito ocupado nestes dias, mas ainda é possível achar uma data em 2009", assegura Felipe Gallardo, da equipe da agência.

Stiglitz integra o grupo High Profiles Speakers, o mais importante da Speakers Associates, ao lado de colegas como Roubini, o Nobel de Economia 2005 Robert J. Aumann e Robert Mundell, também conhecido como "o pai do euro". O ex-piloto Alain Prost, a modelo Elle Macpherson e o tenista Boris Becker estão na mesma classificação. Dependendo da cotação do palestrante na data do evento, os cachês vão de 3 mil libras a 250 mil libras.

Mas a crise não poupa nem quem tenta arrancar algum lucro dela. A Washington Speakers Bureau, uma das maiores agências de palestrantes dos Estados Unidos, admitiu que o volume de conferências marcadas por parte de instituições financeiras caiu pelo menos 20% no fim de 2008, em comparação ao mesmo período do ano anterior.

Para facilitar os contratos em tempos de orçamentos magros, a empresa criou uma nova categoria, com conferencistas que apresentam cachês na faixa de US$ 15 mil. Com isso, dá para ouvir o jornalista e ex-corretor Ted Fishman, autor de "China S.A." e outros 70 especialistas no mesmo nível.

Ao todo, a Washington Bureau tem contrato exclusivo com 186 conferencistas, como os pesos pesados Alan Greenspan, ex-presidente do Fed, e o ex-primeiro-ministro inglês Tony Blair. A ex-secretária de Estado dos EUA Condoleezza Rice e seu antigo chefe, George Bush, são as mais recentes aquisições da casa.

Para o professor da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA-USP) Fabio Kanczuk, que já estudou em Harvard, os eventos com economistas estrangeiros no Brasil apresentam uma boa seleção de oradores e podem ajudar os empresários locais a entender o cenário mundial. "Se é isso o que eles podem escutar, por que não?"

Se tivesse oportunidade, Kanczuk pagaria ingresso para ouvir Roubini e Krugman e ainda gostaria que a onda de bate-papos financeiros trouxesse ao Brasil Willem Buiter, professor da London School of Economics e ex-economista-chefe do Banco Europeu - além de blogueiro do jornal "Financial Times". "Ele tem boas opiniões sobre a crise e o futuro do mercado." Recentemente, Buiter defendeu que os principais bancos de varejo ingleses, como o Barclays, vão acabar seus dias debaixo da asa quente do poder público.

"Além de trazer novas ideias para o Brasil, os conferencistas podem levar daqui uma imagem mais real do país, ainda mal avaliado, economicamente, lá fora", diz Antonio Correa de Lacerda, professor do departamento de economia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Para ele, é importante ouvir todos, mas principalmente aqueles que conhecem melhor a realidade brasileira.

Lacerda conheceu Stiglitz em um encontro para 20 professores e economistas, em São Paulo, em 2007. "Apesar do seu enorme preparo, ele reconheceu que não sabia nada do Brasil. Mas hoje, depois da Índia e China, voltamos a estar na moda no mundo da economia."

Para quem não está sentado à mesa dos debatedores, o valor da inscrição também pode cobrir mais do que a conferência marcada. Carlos Monteiro, dono de uma consultoria especializada em educação superior, frequenta eventos corporativos há 15 anos e vai investir R$ 30 mil em palestras neste ano.

"Vejo mais de 50 apresentações por ano", conta o empresário, que mora em Marília (SP) e não perde um evento em São Paulo. Em média, o tíquete das conferências vai de R$ 750 a R$ 4 mil. Além de buscar novos conhecimentos, o consultor vai aos encontros para fazer contatos e amarrar parcerias em curso.

Dias antes de pegar o seu crachá no Fórum de Lucratividade, realizado no dia 24, em São Paulo, ele já havia marcado um café-da-manhã e um jantar com clientes potenciais do Rio de Janeiro e do Rio Grande do Sul, que estavam na cidade para o evento.

Para o diretor de análise de mercado do Ibope Inteligência, Marcelo Coutinho, as conferências poderiam ganhar uma nova configuração. Figura fácil nas poltronas dos auditórios nos anos 90, ele reduziu seu bate-cartão em eventos do gênero. "A importância do networking continua inquestionável, mas a captação do conteúdo apresentado mudou."

O executivo acredita que as palestras precisam ser repaginadas porque ficou mais fácil ter acesso às linhas de pensamento dos convidados - a maioria colabora para grandes jornais e pode ser lida diariamente na internet. "É necessário criar reuniões articuladas, depois da palestra, como fóruns de discussão on-line ou encontros menores, para repercutir as apresentações e trazê-las à realidade local."

Seguindo essa tendência, os organizadores da conferência de Nouriel Roubini em São Paulo oferecem um jantar para 50 privilegiados depois da apresentação do economista. O cardápio e o local da reunião ainda não estão definidos, mas quem se inscreveu com antecedência na palestra tem chance de ganhar um lugar à mesa, ao lado de Roubini, e tentar descobrir, antes do cafezinho, como sair desta crise sem um arranhão.


Fonte: Valor Econômico

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