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Para reinventar a universidade

A pós-graduação é a Detroit do ensino superior. A maioria dos programas de pós-graduação em universidades americanas produz um artigo para o qual não há mercado e desenvolvem habilidades cuja demanda está em queda – pesquisa em subcampos dentro divulgação em publicações lidas apenas por alguns colegas. Tudo a um custo em rápido crescimento – às vezes acima de US$100 mil (R$218 mil) em crédito estudantil.

Os congelamentos de contratações e as dispensas generalizadas colocaram esses problemas em forte destaque neste momento. Mas o sistema de pós-graduação está em crise há décadas, e as sementes dessa crise remontam à formação de universidades modernas. Kant escreveu, em seu trabalho de 1798, O Conflito das Faculdades, que as universidades deveriam “tratar do conteúdo inteiro do ensino com a produção em massa, por assim dizer, com uma divisão de trabalho, de modo que para cada ramo das ciências haveria um professor público ou professor nomeado como seu responsável”.

Infelizmente, esse modelo de universidade com produção em massa levou a uma separação onde deveria haver uma colaboração e a uma especialização sempre crescente.

Em meu departamento de religião, por exemplo, temos dez docentes trabalhando em oito subcampos, com pouca sobreposição. E, à medida que os departamentos se fragmentam, pesquisa e publicação se tornam cada vez mais sobre cada vez menos. Cada acadêmico torna-se o responsável não por um ramo das ciências, mas por um conhecimento limitado que, com frequência, é irrelevante.

A ênfase em um aprendizado estreito também encoraja um sistema educacional que se tornou um processo de clonagem. Docentes cultivam alunos cujos futuros eles vislumbram como idênticos a seus próprios passados, apesar de sua vitaliciedade se interpor no caminho de esses alunos terem um futuro como livres docentes. Para o ensino superior americano prosperar no século 21, as universidades precisam ser, como Wall Street e Detroit, reguladas com rigor e completamente, reestruturadas.

SEIS PROPOSTAS

O longo processo para tornar o ensino superior mais ágil,adaptativo e imaginativo pode começar com seis grandes passos:

1. Reestruturar o currículo, começando pelos programas de pós-graduação e prosseguindo o quanto antes para os de graduação. O modelo de divisão de trabalho de departamentos separados é obsoleto e deve ser substituído por um currículo estruturado como uma teia ou uma rede adaptativa complexa. Um ensino e conhecimento responsável deve se tornar multidisciplinar e multicultural.

2. Abolir departamentos permanentes, mesmo na graduação, e criar programas focados em problemas. Esses programas em constante evolução teriam cláusulas sobre tempo de validade, e a cada sete anos cada um seria avaliado,podendo ser abolido, continuado ou significativamente modificado. É possível imaginar um amplo leque de tópicos em torno dos quais zonas de investigação poderiam ser organizadas, como mente, corpo, lei, informação, redes, linguagem, espaço, tempo, mídia, dinheiro e água.

3. Aumentar a colaboração entre instituições. A tecnologia torna possível que escolas formem parcerias para compartilhar alunos e professores.

4. Transformar a dissertação tradicional. Já não há mercado para livros moldados na dissertação medieval, com mais notas de rodapé do que texto. Com o aumento constante das pressões financeiras sobre a universidade, a publicação de dissertações, e com ela a certificação de conhecimento, é quase impossível.

5. Expandir o leque de opções profissionais para alunos de pós-graduação.A maioria deles jamais terá o tipo de trabalho para o qual está sendo treinada. É necessário, portanto, prepará-los para trabalhar em outros campos que não o ensino superior.

6. Impor a aposentadoria obrigatória e abolir a vitaliciedade. Inicialmente criada para proteger a liberdade acadêmica, a vitaliciedade resultou em instituições com pouca rotatividade e professores impermeáveis à mudança. Ela deveria ser substituída por contratos de sete anos que, como os programas que os docentes ensinam, podem ser terminados ou renovados. Com essa política, faculdades e universidades poderiam premiar pesquisadores, cientistas e professores que continuam evoluindo e permanecem produtivos enquanto abrem espaço para jovens com novas ideias e habilidades.

Mark C. Taylor é presidente do departamento de religião na Universidade Columbia e autor de Field Notes From Elsewhere: Reflections on Dying and Living, a ser publicado em breve.

Fonte: O Estado de São Paulo

 

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