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Recursos Humanos

Aluno tem aula de madrugada em centro universitário

23/03/2009 - Horários alternativos -a partir das 5h45 ou após as 23h- e mensalidade mais barata são principais atrativos de cursos

Padeiro que tinha trancado a matrícula por ter de trabalhar diariamente das 7h às 22h voltou a estudar com a abertura de curso

PAULO SAMPAIO
DA REPORTAGEM LOCAL

Um grupo de garçons jogando bola de madrugada no Aterro do Flamengo, no Rio, despertou no empresário Hélio Athia Jr. a ideia de criar horários alternativos em cursos universitários, para atrair quem sai muito tarde do trabalho -ou não tem tempo de dia.
"Eu estava insone, no quarto do hotel, quando vi aqueles rapazes disputando uma pelada. Desci, conversei com eles e concluí que, se tinham disposição para jogar bola, poderiam estar estudando", diz Athia Jr., que é pró-reitor do centro universitário UniÍtalo, em Santo Amaro (zona sul de SP).
Isso foi no fim de 2007. Em agosto do ano passado, o UniÍtalo inaugurou no horário das 5h45 às 8h30 uma turma de administração de empresas. Em janeiro deste ano, criou uma segunda opção de horário, das 23h à 1h45, abriu mais quatro turmas e acrescentou cursos de tecnologia de recursos humanos e pedagogia.
Agora, são 180 alunos. A carga horária é a mesma dos cursos diurnos, porém, redistribuída. A conclusão do curso se dá em 22 semanas, com aulas de três horas, e não em 17 semanas, com aulas de quatro horas.

Autorização do MEC
Diferentemente das faculdades, que precisam de autorização do MEC para a criação de cursos superiores, os centros universitários têm autonomia para isso -assim como as universidades, que, contudo, devem obrigatoriamente oferecer um volume expressivo de pesquisa e cursos de extensão.
O diretor da área de negócios do UniÍtalo, professor Wanilson Benevenuto, diz que, apesar da autonomia, os cursos são submetidos à avaliação do MEC (Ministério da Educação) em um período de quatro anos. Segundo Benevenuto, convocar professores para dar aulas em horários tão pouco convencionais não foi difícil, já que a maioria é diretor de área e está envolvida desde o início com o projeto. O próprio Benevenuto dá aula em administração.

Metade do preço
Para facilitar a divulgação da iniciativa e atrair outros entusiastas, as mensalidades são mais em conta do que as dos horários convencionais.
O aluno do curso de RH Charles Lucas Farias, 22, conta que foi atraído pela oportunidade de pagar 50% da mensalidade do horário que frequentava anteriormente, o das 19h. "De R$ 384, passei a pagar R$ 192", diz ele, no intervalo da aula de fundamentos da gestão de marketing, à meia noite.
Athia Jr. diz que ainda não é possível avaliar se o rendimento das turmas "notívagas" é igual. Mas o professor de contabilidade Djalma de Carvalho teoriza: "É mais fácil o aluno ter sono na aula das 14h, depois do almoço, do que na das 23h."
"Venho pilhada do trabalho, não sinto o menor sono. Quando chego em casa, às 2h, ainda demoro pra dormir", diz Tatiana Arruda, 22 anos, aluna do curso de administração.
A Folha assistiu à aula de Carvalho e observou que a turma parecia muito animada.

Aplicação na padaria
Uma das explicações para o comprometimento dos alunos pode estar na disposição extra de quem escolhe um horário não convencional. "Eles vêm mais focados", diz Benevenuto.
O padeiro Júlio Pereira, 29, que trabalha das 7h às 22h, já tentou cursar administração à tarde, horário de pouco movimento na panificadora da família, mas teve de trancar.
"Pensei que poderia deixar alguém no meu lugar, mas não deu. Trabalho de domingo a domingo e não tenho condição de me ausentar", explica Pereira, que quer aperfeiçoar os conhecimentos de administração.
Do lado de fora do prédio, não há o menor resquício da efervescência que se espera de um campus -frequentado, de dia, por 8.000 alunos.
Em relação ao acesso, há pontos negativos e positivos. O aluno Charles Lucas diz que, como não há transporte público, ele caminha uma hora até chegar em casa. Mas há vantagens. O professor Fábio Souza diz que, às 5h, é possível vir de Pirituba (zona norte), onde mora, até a avenida João Dias, em 20 minutos -tempo quatro vezes menor se fosse às 17h45.

Memorização é menor à noite, diz pesquisador

SAMANTHA LIMA
DA SUCURSAL DO RIO

O especialista em cronobiologia da Unicamp Edson Delattre adverte que a capacidade de memorização e de aprendizagem das pessoas atinge o ápice entre o fim da manhã e o início da tarde. "Independentemente da hora em que a pessoa costuma acordar ou dormir, é à noite que o sono é mais reparador e que os neurônios se restabelecem. A capacidade de aprendizagem é reduzida."
Delattre afirma que a solução seria escolher o horário de acordo com seus hábitos de sono e tentar compensar da melhor forma possível as horas mal dormidas. "Cerca de 20% da população dorme muito tarde ou acorda muito cedo e, para esses, não haveria tantos problemas."
Quem dorme mal por muito tempo ameaça a saúde. "Há riscos de se desenvolver problemas gástricos e de pressão arterial. Quem dorme mal também abrevia os dias de vida", alerta.
Em termos profissionais, especialistas dizem que o mercado não discriminaria alunos vindos de cursos superiores "da madrugada".
"Não é o horário que determina se o curso é bom, mas a qualidade das aulas e dos professores", diz Roberto Carvalho Cardoso, presidente do Conselho Federal de Administração. "Vivemos numa cidade 24 horas, o que torna isso aceitável", diz Maria Inês Felippe, vice-presidente da Associação Brasileira de Recursos Humanos.
Para o consultor e ex-reitor da USP Roberto Lobo, o risco é a falta de rigor. "Como a maioria trabalha fora e estuda de madrugada, o professor pode facilitar a aprovação para não desestimular", diz.
"Outro problema é que esse horário não favorece ao aluno frequentar bibliotecas e assistir a palestras, o que empobrece a formação."
O MEC não faz restrições, mas a experiência já fracassou. Segundo ministério, cursos na madrugada "não constam das estatísticas". Em 2002, a Estácio de Sá criou um de extensão em informática, que durou dois semestres. Segundo a universidade, foi encerrado "por razões mercadológicas".
A Uespi (Universidade Estadual do Piauí) ofereceu cursos pós-noturnos entre 2000 e 2004, mas os interrompeu. A instituição não informou por que desistiu.


Fonte: Folha de São Paulo

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