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Recursos Humanos

O novo papel dos coordenadores de cursos

Administração, marketing, psicologia, pleno conhecimento acadêmico de sua área e liderança são fundamentais na substituição de um simples coordenador para um profissional inovador: o gestor de cursos

Da Trama Comunicação


A pressão em que vivem os coordenadores de cursos é idêntica à vivida por profissionais que atuam em grandes empresas, em que prazos e metas devem ser rigorosamente cumpridos com efi ciência. Nesse contexto, esse profissional precisa desenvolver algumas habilidades para lidar com a situação, como obtenção de informação para identificação de novas oportunidades, comunicação persuasiva, perspicácia em negociações, habilidade de comunicação interpessoal e resolução de problemas entre professores e alunos. Competências meramente acadêmicas não são mais suficientes.

Ter visão futurista e controlar a evasão de alunos também faz parte do cotidiano deste especialista. Dentro dessa perspectiva, pode-se perceber que os coordenadores não são mais (ou não deveriam ser) meros bedéis com um bom histórico acadêmico, que organizam tarefas de alunos e professores. Esse especialista cresceu em importância, que pode ser considerado determinante para o sucesso ou fracasso de um programa. Surge, então, um novo profi ssional: o gestor de cursos.

"A tarefa burocrática faz com que os coordenadores pesquisem pouco e se distanciem do mundo acadêmico", José Francisco Salm, consultor da CM Consultoria e professor da Esag/Udesc


Novas competências

 

Obtenção de informação para identificação de novas oportunidades, comunicação persuasiva, perspicácia em negociações, habilidade de comunicação interpessoal e resolução de problemas entre professores e alunos são as competências necessárias para o gestor de cursos

 

"O gestor deve sempre se atualizar, acompanhando o que está acontecendo no campo da educação básica e da gestão escolar no País e,
mesmo, no exterior. Além de bem informado, deve ter presente que seu comportamento se destaca como uma referência para a equipe. Sua influência é também exercida por meio de processo educativo. A atitude do líder estabelece o padrão de desempenho e de relacionamentos interpessoais
da escola. Seu comportamento determina, em boa medida, o clima da instituição, que pode ou não motivar a integração das equipes. Integrar as lideranças é um esforço essencial para que haja não apenas consistência de orientação, mas também coerência estratégica na missão educativa". Apesar de ter feito essa declaração há exatos dez anos no livro Empresa que Pensa: Educação Empresarial - Renovação Contínua a Distância, o autor Francisco Gomes de Matos não se distancia da opinião dos atuais profi ssionais da área.

De acordo com o professor Luiz Guilherme Brom, doutor em ciências sociais da PUC-SP, mestre em Gestão Social pela Universidade de Louvain (Bélgica) e superintendente institucional da Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado (Fecap), hoje, os coordenadores são cada vez mais responsáveis pela qualidade dos cursos e têm de apresentar algumas características de liderança. "O profissional deve ter a capacidade de perceber com clareza as necessidades pedagógicas, as demandas e problemas do alunado, tais como baixo rendimento ou evasão. Por outro lado, deve possuir habilidade para cooperar, de forma decisiva, para o desenvolvimento institucional da organização, participando do conjunto de questões estratégicas e operacionais. A atividade de coordenação exige elevado grau de relacionamento com toda a comunidade acadêmica", afirma Brom. "A prática é avaliada pela qualidade do todo, que engloba a formação de um currículo moderno e o resultado fi nanceiro. Não basta ter uma boa grade curricular. O curso deve ser sustentável", completa Marcelo Moura, diretor acadêmico do Ibmec São Paulo.

"As escolas tendem a ser conservadoras, mas, de certa forma, isso não é totalmente negativo. Se analisarmos o histórico educacional, vemos que muita bobagem já foi feita", avalia Alexandre Gracioso, diretor nacional de cursos de graduação da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM)

Entre os especialistas entrevistados pela Revista @prender, há consenso de que existem três requisitos básicos para que a função de coordenador de curso seja exercida de forma plena. Primeiro, o candidato deve ser, idealmente, mestre e/ou doutor; deve ainda ser contratado pelo regime integral para que tenha dedicação maior ao desenvolvimento das atividades do curso. Além disso, deve continuar ministrando aulas, o que efetivará uma vinculação direta ao ‘produto' que coordena.

Esse profi ssional lida, diariamente, com a diversifi cação de deveres e de obrigações e, como agente mediador, deve administrar todas as divergências. "O coordenador deve ser um administrador de conflitos, já que cada público com que lida tem um interesse diferente. Em uma frente, estão os alunos, que querem pagar cada vez menos e, muitas vezes, ter menos aulas. Do outro lado, estão os interesses dos professores, que querem agregar cada vez mais diferenciais em suas matérias; da mantenedora, que quer gastar menos; e até mesmo dos pais desses alunos, que exigem qualidade. Deve-se ter bastante equilíbrio", afirma Gisleine Eimantas, diretora dos campi Centro e Anhangabaú da Universidade Anhembi Morumbi.

Vale frisar que todo esse trabalho não pode ser feito somente com a fi gura do gestor de cursos. Uma boa equipe de docentes é de extrema importância. "A formação da equipe de professores é essencial, uma vez que o perfi l desses profissionais mudou muito. Hoje, eles têm de ser show men para manter a atenção dos alunos. Por isso, a escolha dos agentes de ensino, que é realizada pelos coordenadores, é fundamental", salienta Gisleine. Após a equipe formada, é importante que esse grupo interaja com os outros departamentos da universidade, para que todos caminhem em direção a um mesmo foco. "A interação entre os departamentos é essencial, pois não se pode esquecer que a escola é uma empresa. Na Anhembi Morumbi, temos um sistema de intranet, onde se pode acompanhar tudo o que acontece nos departamentos", conclui.


 

Grande parte das instituições de ensino ainda preserva uma postura tradicional, que não permite abertura
para comportamentos arrojados.
Dessa maneira, ao mesmo tempo em que se exige que os coordenadores
sejam especialistas dotados de muitas
iniciativas, tal tradicionalismo pode,
muitas vezes, minar boas idéias

 

Não se engane

Algumas características ou atitudes podem colocar em risco a atuação de um bom coordenador. O senso de invulnerabilidade é um deles. Profissionais
propensos a correr riscos desnecessários podem ser perigosos para os resultados das universidades.
O conservadorismo das instituições, criticado por muitos, pode ser estratégico nesses casos. "As escolas tendem a ser conservadoras, mas, de certa forma, isso não é totalmente negativo. Se analisarmos o histórico educacional, vemos que muita bobagem já foi feita", avalia Alexandre Gracioso, diretor nacional de cursos de graduação da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM). "Se você muda o currículo hoje, por exemplo, só vai ver o resultado dentro de quatro ou cinco anos, quando o aluno se formar. Portanto as mudanças devem ser realizadas de maneira cuidadosa e qualificada. E todas essas alterações devem ser previamente validadas por outros membros do corpo docente", orienta.

Abmes formula cartilha do coordenador ideal

Os profissionais que desejam saber mais informações sobre as novas competências desta figura presente nas instituições de ensino superior, e ferramentas que podem ajudá-los a desenvolver esta função, podem ter acesso, gratuitamente, ao manual "Funções do coordenador de curso: como ‘construir' o coordenador ideal". A cartilha, de autoria de Edson Raymundo Pinheiro Franco, reitor da Universidade da Amazônia (Unama), está disponível na página da Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (Abmes), no endereço:

http://www.abmes.org.br/publicacoes/Cadernos/08/
funcoes_coordenador.htm

Em contrapartida, profissionais pouco empreendedores e acomodados em suas funções também podem ser prejudiciais. Mesmo porque, bons negócios atraem sempre novos concorrentes que tentam copiar um conceito, aperfeiçoá-lo e vendê-lo em melhores condições para os clientes. Portanto, não basta ter a idéia inicial. "Os coordenadores devem ter uma boa visão de negócios e estar sempre bem informados. Montar um curso sem controlá-lo é fácil. O difícil é fazê-lo de maneira econômica, trazendo retorno fi nanceiro para a instituição e atendendo as necessidades mercadológicas que os alunos buscam", afirma a diretora da Universidade Anhembi Morumbi. E para ter uma boa visão de negócios, a informação é prioridade. "Com carência de informação, pode-se, por exemplo, criar um curso que não esteja ligado ao mercado", diz Gisleine Eimantas.

 

Profissionais propensos a correr riscos desnecessários podem ser
perigosos para os resultados das
universidades

 

O excesso de afazeres burocráticos também pode prejudicar o desempenho dos coordenadores de curso pouco proativos. ""A tarefa burocrática faz com que eles pesquisem pouco e se distanciem do mundo acadêmico", salienta José Francisco Salm, consultor da CM Consultoria e professor da Esag/Udesc nesta área. . No entanto, também cabe às instituições de ensino ter bom senso e fazer com que tais atividades não atrapalhem o dia-a-dia desse profissional. "Muitas universidades colocam alguém no cargo e esperam que ele faça um milagre. Estes estabelecimentos vivem um paradoxo: ao mesmo tempo em que abrigam gênios da criatividade, têm a estrutura burocrática alienante", conclui Salm.

Para Luiz Guilherme Brom, superintendente institucional da Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado (Fecap), os coordenadores são cada vez mais responsáveis pela qualidade dos cursos e têm de apresentar algumas características de liderança


Principais dificuldades

Grande parte das instituições de ensino ainda preserva uma postura tradicional, que não permite abertura para comportamentos arrojados. Dessa maneira, ao mesmo tempo em que se exige que os coordenadores sejam especialistas dotados de muitas iniciativas, tal tradicionalismo pode, muitas vezes, minar boas idéias. Adquirindo um caráter mais independente, os profi ssionais terão mais confiança e autonomia para resolver os problemas do dia-a-dia e para colocar em prática sua gestão.

Outro ponto que pode se tornar crítico é a complexidade da administração de pessoas, uma vez que este aspecto inclui também os clientes. "Na ESPM, optamos por ter um canal de relacionamento aberto, em que todos os alunos podem ter acesso aos coordenadores de curso, que têm de resolver, muitas vezes, até problemas de relacionamento, coisa que antes não acontecia. A partir do momento em que se opta por esse modelo, a carga do dia-a-dia torna-se muito forte, mas isso é fundamental. Não podemos nos dar ao luxo de ter alunos insatisfeitos", exemplifica
Alexandre Gracioso.

 

"Boa parte das
universidades não entende
que grandes empresas
investem, maciçamente, em seus profissionais para que estejam totalmente aptos a atender as exigências do mercado. A ‘casa do saber' nega-se, muitas vezes, a enxergar que seus funcionários também têm de ser capacitados", José
Francisco Salm, consultor da CM Consultoria e professor da Esag/Udesc

 

O grupo de docentes também merece bastante atenção, cuja cultura tradicional os caracterizou como inflexíveis às opiniões externas. "Coordenar professores não é uma tarefa fácil. Geralmente, os acadêmicos são pessoas com muita capacidade e que têm razões sólidas para agir desta ou daquela maneira. Por essa razão, os coordenadores devem ter um poder de negociação muito forte", justifi ca Gracioso.


Mercado internacional é similar

Apesar dos países desenvolvidos apresentarem sistemas educacionais diferenciados, podese afirmar que a função dos coordenadores prevalece
no Brasil e no exterior. O professor José Francisco Salm, formado pela Universidade do Sul da Califórnia, afi rma, por sua experiência, que não existem diferenças entre esses profissionais aqui e em outros países, e esses profissionais sofrem pelo sistema burocrático qualquer que seja a instituição. "Na Europa e nos Estados Unidos, a figura é a mesma. Não há mudanças signifi cativas. A burocracia também é igual no mundo inteiro", explica.

No entanto, é necessário estar atento a outros sistemas educacionais, com a devida cautela. "Copiar grosseiramente aspectos superficiais de instituições estrangeiras em nada colabora para a qualidade de nossos cursos. A transposição de experiências estrangeiras deve ser realizada de forma crítica, observando-se, sobretudo, os aspectos qualitativos", alerta o especialista da Fecap.

"A prática é avaliada pela qualidade do todo, que engloba a formação de um currículo moderno e o resultado fi nanceiro. Não basta ter uma boa grade curricular. O curso deve ser sustentável", Marcelo Moura, diretor acadêmico do Ibmec São Paulo.

O sistema educacional nos EUA, por exemplo, oferece algumas contribuições importantes, como flexibilidade, atenção individual, aprendizado prático e acesso às melhores instituições de pesquisa do mundo. Com base nesses conceitos, pode-se extrair boas idéias e adaptá-las ao mercado nacional. "Acordos de cooperação científi ca são um bom caminho para esse objetivo", conclui Luiz Guilherme Brom.


Cursos de capacitação

Para se obter todas as competências exigidas pelo novo perfil de coordenadores de curso, é necessário que as universidades invistam nesse profissional, segundo afi rma José Francisco Salm. "Boa parte das universidades não entende que grandes empresas investem, maciçamente, em seus profi ssionais para que estejam totalmente
aptos a atender as exigências do mercado. A ‘casa do saber' nega-se, muitas vezes, a enxergar que seus funcionários também têm de ser capacitados", afirma.

No entanto, se a capacitação não é estimulada da forma que deveria, esses profissionais já podem buscar caminhos alternativos. A importância de ter funcionários qualifi cados é tamanha que algumas instituições de ensino já promovem cursos de especialização dirigidos a estes especialistas. Estes cursos seguem programas que abordam temas como marketing educacional, análise da concorrência, gestão de custos e formação de preços, legislação e contratos, gestão operacional, fi nanceira, acadêmica e estratégica de escolas e gestão de pessoas e equipes.

Além de cursos alternativos, a política de capacitação do corpo docente pelas IES deve incluir a participação dos professores em eventos para apresentação de trabalhos de pesquisa, desenvolvimento de projetos de extensão e o estímulo às publicações, aliada a dedicação temporal e aos estímulos salariais que lhes permitam acompanhar as transformações impostas pelo avanço do conhecimento e pelas inovações tecnológicas. Na Fecap, por exemplo, tais medidas já foram estabelecidas. "Nossos professores e coordenadores participam de eventos ligados à educação de forma constante, no Brasil e no exterior. Além disso, a pró-reitoria de Graduação elabora e executa um plano anual de capacitação contínua.

Neste ano, teremos uma ampliação sensível desse projeto, com elevado investimento em tecnologias de apoio, bases de dados e publicações de forma geral", explica Luiz Guilherme Brom.

 

O gestor de cursos deve gerenciar interesses de todas as partes envolvidas
no processo educacional: docentes, alunos, pais e mantenedores

 

O coordenador do futuro

A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional
(LDB) introduziu signifi cativas mudanças no sistema universitário brasileiro. A estrutura hierarquizada como a departamentalização, coordenadorias, centros e currículos mínimos foi abolida, deixando sob a administração das instituições a responsabilidade de se tornarem empresas com alto retorno. Dessa forma, as universidades devem dispor de gestores de curso que se empenhem em uma nova forma de atuação empreendedora, para acompanhar as modificações da própria universidade.

Para Luiz Guilherme Brom, superintendente institucional da Fecap, o modelo de escola autoritária, de ensino conservador desprovido de crítica e debate, não terá espaço no futuro. "A escola como agente de mudança deverá prevalecer. O profissional em questão terá, portanto, um papel central nessa questão: deverá promover a escola como um local privilegiado para o livre exercício da intelectualidade e da criação. É a escola inovadora em lugar da escola estéril, que não faz qualquer diferença para quem a cursa", afi rma Brom.

"Acredito que os responsáveis pela coordenação de um curso devem evoluir até ser responsáveis pelo desempenho fi nanceiro do curso. Ele será um gestor de unidade de negócio, de produto. É claro que os coordenadores de uma faculdade de administração, por exemplo, terão mais facilidade em lidar com essa realidade. Aqueles que coordenam um curso de medicina, por exemplo, terão mais desafios pela frente", conclui Alexandre Gracioso. O gestor de cursos deve gerenciar

 

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