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Revista 30 - Mai/Jun 2006

Graduação Tecnológica: nova tendência na educação brasileira

Crescimento da oferta de ensino de educação tecnológica é aposta para estreitar relações com empresas
 Por Trama Comunicação

No ano de 2002, o Brasil possuía 636 cursos de tecnologia espalhados por todo o País. Em 2004, o índice havia saltado para 1.804. Somente no setor privado, o crescimento foi de 288 para 1.003 graduações tecnológicas nesse período. Os números, extraídos dos censos educacionais realizados pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), representam a confi rmação de uma tendência que já estava consolidada mundialmente: o estabelecimento de programas de menor duração, capazes de entregar ao mercado profi ssionais prontos para atuar e auxiliar no desenvolvimento de empresas e, conseqüentemente, da economia brasileira.

Como todos os recentes processos de expansão de ensino no país, a origem do crescimento foi o início da vigência da Lei de Diretrizes e Bases de Educação (LDB), de 1996, que propunha uma reforma da estrutura da educação profissional brasileira. São cursos que, por suas características, proporcionam uma maior agilidade na adaptação de seu conteúdo às demandas do mercado e permitem a seus concluintes até mesmo uma continuidade dos estudos por meio de pós-graduações profi ssionais e acadêmicas nos níveis lato sensu e stricto sensu.

Somado à aceleração das transformações socioeconômicas, o ensino superior tecnológico atual teve sua importância multiplicada e goza de uma reputação cada vez maior em todos os setores. "Hoje, esse tipo de curso forma o profissional que está localizado no meio da pirâmide social brasileira: a curta duração atende à maior urgência de gerar renda e os programas dinâmicos agilizam sua entrada no mercado de trabalho", destaca o professor Carlos Monteiro, diretor-presidente da CM Consultoria.

Com o novo cenário, fi nalmente, o ensino superior brasileiro aproxima-se um pouco mais de uma realidade que a maioria dos especialistas considera fundamental para o desenvolvimento do País: a aproximação entre IES e as empresas.


Ordem é aproximação com o mercado

A lacuna existente entre as instituições de ensino superior e todos os setores que desenvolvem a economia e a tecnologia é evidente e provoca atraso tanto no sistema educacional quanto no desenvolvimento de bons profissionais. A universidade como academia de conhecimento e pesquisa é muito importante para o País, mas o objetivo da maior parte dos jovens que iniciam um curso é garantir sua empregabilidade no mercado.

Com esse pensamento, o Centro Universitário Senac, de São Paulo, foi a primeira instituição privada a abrir um curso de tecnologia, na área de hotelaria, em 1989. "O setor estava em crescimento no Brasil, mas possuía um défi cit muito grande de profissionais especializados", conta Maria Tereza Franzin, diretora de Graduação do estabelecimento. Por ser uma área inovadora, com necessidade imediata de profissionais, muitas pessoas dispostas a cursar e currículo dinâmico, a iniciativa vingou. "Nós sempre estivemos muito atentos ao que acontece com a sociedade e com as novas tendências no mundo do trabalho; por isso apostamos em uma modalidade que não era muito usual em cursos de tecnologia", completa.

 

Para atender a demanda
não suprida pelas IES
existentes, o Senai abriu seus
próprios cursos de graduação
tecnológica a pedido da
indústria

 

A primeira experiência bem-sucedida alavancou uma série de outros programas, e a aproximação com o mercado se dá tanto por convênios quanto pela contratação de professores que atuam no mercado e carregam atualizada bagagem profi ssional. "Atualmente, nada que não
tenha uma ressonância com o mundo da produção se firma", garante. Para manter essa abordagem, a instituição possui um setor de estágios que não cuida somente do encaminhamento de alunos para o emprego, mas também ajuda a promover encontros entre empresas contratantes e coordenadores de curso, para que a troca e a atualização sejam constantes.

Durante os trâmites de abertura, o a Faculdade IBTA fechou parcerias com algumas das empresas mais conceituadas em sua área de atuação

E se há alguma dúvida sobre esse distanciamento entre empresas e ensino superior, a iniciativa do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai) de abrir seus próprios cursos superiores de tecnologia confi rma a tese. A organização, que atua desde a década de 40 na formação de mãode-obra para a indústria brasileira, identificou que o desenvolvimento industrial apresentava níveis de exigências e complexidades cada vez mais elevados e notou que o ensino superior já estabelecido, público ou privado, não dava conta de atender às demandas do setor.

Nesse contexto, a partir da década de 90, a entidade mantida pela indústria fez um estudo aprofundado do mercado e abriu o primeiro curso de tecnologia, na área têxtil. Hoje são 28 setores tecnológicos atendidos, em diversas cidades do País, além de 90 programas de pós-graduação. Os cursos nascem à medida que as empresas apontam as necessidades para o Senai. "Formatamos nossas graduações por meio da implementação de comitês técnicos setoriais com representantes de empresas, dos trabalhadores, do meio acadêmico e especialistas em educação profissional. Neles, são estabelecidas as competências necessárias para o profissional daquele setor e, fi nalmente, formulamos os currículos", revela Alberto Borges de Araújo, gerente-executivo de Educação Profi ssional do Senai.

A Faculdade IBTA, de São Paulo, possui um processo parecido com o do Senai, que foi estabelecido antes mesmo de a instituição iniciar suas atividades. Durante os trâmites de abertura, o estabelecimento fechou parcerias com companhias de referência em tecnologia da informação, como Cisco, Oracle, Microsoft e IBM. Depois do sucesso nessa área, a instituição aliou-se ao Banco Real e à empresa de logística DHL para iniciar programas de gestão. "O objetivo é fazer com que as empresas passem a trabalhar conosco no projeto de curso. São elas que dizem o que o aluno precisa saber para atuar no mercado. Para tanto, elas fazem parte de um conselho que desenvolve o curso", diz Francisco Borges, diretor acadêmico da Faculdade.

A instituição também se preocupa em compor o corpo docente tanto com profissionais do mercado quanto acadêmicos. "O segredo é utilizar educadores com experiência didática para as partes dos módulos de fundamentação teórica, que sempre é necessária, e utilizar os profissionais de mercado quando necessitar de aplicação prática". Segundo o professor Fernando Lemes do Prado, presidente da Associação Nacional de Ensino Tecnológico (Anet), uma das características essenciais para manter a sintonia com o mercado é a interdisciplinaridade do projeto. "Muitas escolas realizam um recorte do bacharelado e chamam de graduação tecnológica. Somente por meio do componente interdisciplinar é possível estabelecer parcerias com o mercado de forma efetiva e formular um currículo que trabalhe com os reais problemas das empresas e forneça as habilidades necessárias ao aluno", atesta.

"O objetivo é fazer com que as empresas passem a trabalhar conosco no projeto de curso. São elas que dizem o que o aluno precisa saber para atuar
no mercado. Para tanto, elas fazem parte de um conselho que desenvolve o curso", Francisco Borges, diretor acadêmico da Faculdade.

Lemes do Prado é também diretor da Faculdade de Tecnologia Professor Luiz Rosa e conta que a junção das disciplinas em um único projeto foi capaz de gerar essa forte associação com o mercado. "Inicialmente, os alunos precisavam procurar empresas para estabelecer parcerias e trabalhar em cima de problemas reais. Vendo o resultado dos trabalhos, hoje são as empresas que nos procuram, pedindo interferência em algumas de suas questões. Elas ganham consultoria gratuita e de qualidade e eu alimento minha estrutura pedagógica", descreve.

 

No Senac, a
aproximação com o
mercado se dá tanto
por convênios quanto
pela contratação de
professores que atuam
no mercado e carregam
atualizada bagagem
profi ssional

 

Sua opção por docentes é declaradamente mais inclinada para profisionais do mercado. "Não gosto daquela visão muito academicista, como se todos tivessem de formar pessoas para o saber e não para o saber fazer. O melhor professor é aquele que possui ambas: a titulação e experiência profissional. Mas se tiver de optar por um desses dois elementos, escolho a vivência no mercado, até porque não é possível construir elementos teóricos em cima de uma prática que não existe", revela.

Se dependesse somente do mercado, essa aproximação estaria em estágio mais avançado, pois é do interesse das empresas que sua demanda profissional seja atendida com qualidade. O Mapa Estratégico da Indústria, publicação da Confederação Nacional da Indústria (CNI) disponível no endereço eletrônico da organização (www.cni.org.br) aponta as principais urgências de diversos setores. "O desenvolvimento da educação é um dos objetivos estratégicos da indústria e essa condição é uma oportunidade para que as escolas iniciem projetos inovadores nesse atendimento", assinala Carlos Monteiro.

Graduação Tecnológica: nova tendência na educação brasileira
Crescimento da oferta de ensino de educação tecnológica é aposta para estreitar relações com empresas
 

No ano de 2002, o Brasil possuía 636 cursos de tecnologia espalhados por todo o País. Em 2004, o índice havia saltado para 1.804. Somente no setor privado, o crescimento foi de 288 para 1.003 graduações tecnológicas nesse período. Os números, extraídos dos censos educacionais realizados pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), representam a confi rmação de uma tendência que já estava consolidada mundialmente: o estabelecimento de programas de menor duração, capazes de entregar ao mercado profi ssionais prontos para atuar e auxiliar no desenvolvimento de empresas e, conseqüentemente, da economia brasileira.

Como todos os recentes processos de expansão de ensino no país, a origem do crescimento foi o início da vigência da Lei de Diretrizes e Bases de Educação (LDB), de 1996, que propunha uma reforma da estrutura da educação profissional brasileira. São cursos que, por suas características, proporcionam uma maior agilidade na adaptação de seu conteúdo às demandas do mercado e permitem a seus concluintes até mesmo uma continuidade dos estudos por meio de pós-graduações profi ssionais e acadêmicas nos níveis lato sensu e stricto sensu.

Somado à aceleração das transformações socioeconômicas, o ensino superior tecnológico atual teve sua importância multiplicada e goza de uma reputação cada vez maior em todos os setores. "Hoje, esse tipo de curso forma o profissional que está localizado no meio da pirâmide social brasileira: a curta duração atende à maior urgência de gerar renda e os programas dinâmicos agilizam sua entrada no mercado de trabalho", destaca o professor Carlos Monteiro, diretor-presidente da CM Consultoria.

Com o novo cenário, fi nalmente, o ensino superior brasileiro aproxima-se um pouco mais de uma realidade que a maioria dos especialistas considera fundamental para o desenvolvimento do País: a aproximação entre IES e as empresas.


Ordem é aproximação com o mercado

A lacuna existente entre as instituições de ensino superior e todos os setores que desenvolvem a economia e a tecnologia é evidente e provoca atraso tanto no sistema educacional quanto no desenvolvimento de bons profissionais. A universidade como academia de conhecimento e pesquisa é muito importante para o País, mas o objetivo da maior parte dos jovens que iniciam um curso é garantir sua empregabilidade no mercado.

Com esse pensamento, o Centro Universitário Senac, de São Paulo, foi a primeira instituição privada a abrir um curso de tecnologia, na área de hotelaria, em 1989. "O setor estava em crescimento no Brasil, mas possuía um défi cit muito grande de profissionais especializados", conta Maria Tereza Franzin, diretora de Graduação do estabelecimento. Por ser uma área inovadora, com necessidade imediata de profissionais, muitas pessoas dispostas a cursar e currículo dinâmico, a iniciativa vingou. "Nós sempre estivemos muito atentos ao que acontece com a sociedade e com as novas tendências no mundo do trabalho; por isso apostamos em uma modalidade que não era muito usual em cursos de tecnologia", completa.

 

Para atender a demanda
não suprida pelas IES
existentes, o Senai abriu seus
próprios cursos de graduação
tecnológica a pedido da
indústria

 

A primeira experiência bem-sucedida alavancou uma série de outros programas, e a aproximação com o mercado se dá tanto por convênios quanto pela contratação de professores que atuam no mercado e carregam atualizada bagagem profi ssional. "Atualmente, nada que não
tenha uma ressonância com o mundo da produção se firma", garante. Para manter essa abordagem, a instituição possui um setor de estágios que não cuida somente do encaminhamento de alunos para o emprego, mas também ajuda a promover encontros entre empresas contratantes e coordenadores de curso, para que a troca e a atualização sejam constantes.

Durante os trâmites de abertura, o a Faculdade IBTA fechou parcerias com algumas das empresas mais conceituadas em sua área de atuação

E se há alguma dúvida sobre esse distanciamento entre empresas e ensino superior, a iniciativa do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai) de abrir seus próprios cursos superiores de tecnologia confi rma a tese. A organização, que atua desde a década de 40 na formação de mãode-obra para a indústria brasileira, identificou que o desenvolvimento industrial apresentava níveis de exigências e complexidades cada vez mais elevados e notou que o ensino superior já estabelecido, público ou privado, não dava conta de atender às demandas do setor.

Nesse contexto, a partir da década de 90, a entidade mantida pela indústria fez um estudo aprofundado do mercado e abriu o primeiro curso de tecnologia, na área têxtil. Hoje são 28 setores tecnológicos atendidos, em diversas cidades do País, além de 90 programas de pós-graduação. Os cursos nascem à medida que as empresas apontam as necessidades para o Senai. "Formatamos nossas graduações por meio da implementação de comitês técnicos setoriais com representantes de empresas, dos trabalhadores, do meio acadêmico e especialistas em educação profissional. Neles, são estabelecidas as competências necessárias para o profissional daquele setor e, fi nalmente, formulamos os currículos", revela Alberto Borges de Araújo, gerente-executivo de Educação Profi ssional do Senai.

A Faculdade IBTA, de São Paulo, possui um processo parecido com o do Senai, que foi estabelecido antes mesmo de a instituição iniciar suas atividades. Durante os trâmites de abertura, o estabelecimento fechou parcerias com companhias de referência em tecnologia da informação, como Cisco, Oracle, Microsoft e IBM. Depois do sucesso nessa área, a instituição aliou-se ao Banco Real e à empresa de logística DHL para iniciar programas de gestão. "O objetivo é fazer com que as empresas passem a trabalhar conosco no projeto de curso. São elas que dizem o que o aluno precisa saber para atuar no mercado. Para tanto, elas fazem parte de um conselho que desenvolve o curso", diz Francisco Borges, diretor acadêmico da Faculdade.

A instituição também se preocupa em compor o corpo docente tanto com profissionais do mercado quanto acadêmicos. "O segredo é utilizar educadores com experiência didática para as partes dos módulos de fundamentação teórica, que sempre é necessária, e utilizar os profissionais de mercado quando necessitar de aplicação prática". Segundo o professor Fernando Lemes do Prado, presidente da Associação Nacional de Ensino Tecnológico (Anet), uma das características essenciais para manter a sintonia com o mercado é a interdisciplinaridade do projeto. "Muitas escolas realizam um recorte do bacharelado e chamam de graduação tecnológica. Somente por meio do componente interdisciplinar é possível estabelecer parcerias com o mercado de forma efetiva e formular um currículo que trabalhe com os reais problemas das empresas e forneça as habilidades necessárias ao aluno", atesta.

"O objetivo é fazer com que as empresas passem a trabalhar conosco no projeto de curso. São elas que dizem o que o aluno precisa saber para atuar
no mercado. Para tanto, elas fazem parte de um conselho que desenvolve o curso", Francisco Borges, diretor acadêmico da Faculdade.

Lemes do Prado é também diretor da Faculdade de Tecnologia Professor Luiz Rosa e conta que a junção das disciplinas em um único projeto foi capaz de gerar essa forte associação com o mercado. "Inicialmente, os alunos precisavam procurar empresas para estabelecer parcerias e trabalhar em cima de problemas reais. Vendo o resultado dos trabalhos, hoje são as empresas que nos procuram, pedindo interferência em algumas de suas questões. Elas ganham consultoria gratuita e de qualidade e eu alimento minha estrutura pedagógica", descreve.

 

No Senac, a
aproximação com o
mercado se dá tanto
por convênios quanto
pela contratação de
professores que atuam
no mercado e carregam
atualizada bagagem
profi ssional

 

Sua opção por docentes é declaradamente mais inclinada para profisionais do mercado. "Não gosto daquela visão muito academicista, como se todos tivessem de formar pessoas para o saber e não para o saber fazer. O melhor professor é aquele que possui ambas: a titulação e experiência profissional. Mas se tiver de optar por um desses dois elementos, escolho a vivência no mercado, até porque não é possível construir elementos teóricos em cima de uma prática que não existe", revela.

Se dependesse somente do mercado, essa aproximação estaria em estágio mais avançado, pois é do interesse das empresas que sua demanda profissional seja atendida com qualidade. O Mapa Estratégico da Indústria, publicação da Confederação Nacional da Indústria (CNI) disponível no endereço eletrônico da organização (www.cni.org.br) aponta as principais urgências de diversos setores. "O desenvolvimento da educação é um dos objetivos estratégicos da indústria e essa condição é uma oportunidade para que as escolas iniciem projetos inovadores nesse atendimento", assinala Carlos Monteiro.

Fator tempo

Embora tenha duração média de dois anos, a formação de tecnólogos não possui um tempo determinado para sua conclusão. Eles podem chegar a até três anos e meio, dependendo de sua complexidade e da área para a qual está formando profissionais. No entanto, quando sua duração é menor, o potencial e o apelo para atrair alunos com urgência para ingressar no mercado de trabalho são multiplicados.

Com isso, muitos cursos desenvolvem um modelo de divulgação que foca, quase exclusivamente, a curta duração. "Cada um defi ne sua própria estratégia de marketing, eu não gosto de trabalhar com o tempo como se fosse o único predicado. Mas, de fato, esse é um grande atrativo para os alunos, pois a duração menor implica entrada mais cedo no mercado de trabalho e investimento menor", diz Fernando Lemes do Prado.

Maria Tereza Franzin acredita que trabalhar o marketing em cima do fator tempo é uma forma reducionista de posicionar o curso e diz que a maneira de divulgar deve corresponder à formação que o jovem necessita. Assim, ele passa a ter noção de que a graduação é uma oportunidade para sua colocação no mundo do trabalho. "É preciso tomar cuidado também para que as pessoas entendam que a tecnologia não é pior ou melhor que o bacharelado pelo fato de ela ter duração de dois anos", diz.


Brasil precisa recuperar o tempo perdido

Antes de a graduação tecnológica ganhar mais força no País, muitos países de organização notável como França, Estados Unidos e Alemanha há muito tempo possuíam um sistema muito bem estabelecido. Nos Estados Unidos, por exemplo, mais da metade dos profi ssionais de nível superior é formada por esta modalidade. Nesse país, os cursos qualifi cam o aluno para atuar profissionalmente e pode até servir como transição para a obtenção do bacharelado, com os créditos anteriores reconhecidos. Muitos países europeus também possuem um sistema eficiente, no qual os programas tecnológicos são fundamentais. Os alunos têm a opção de cursar dois anos, aprender uma profi ssão e então optar entre partir para o mercado ou continuar na vida acadêmica.

 

As instituições de
ensino privado, embora
preencham um vácuo
deixado pelo Estado no
ensino superior, sempre
copiaram o modelo
estatal de ensino e não
souberam atingir os
alunos de classes sociais
mais baixas

 

No Brasil, o histórico de implementação do ensino superior data do final do século 19, voltado a formar membros de famílias da elite, que permaneciam dominando a economia, a política e até mesmo o cenário artístico. Naquele tempo, a formação da democracia brasileira ainda engatinhava e não havia políticas para o desenvolvimento de um sistema educacional abrangente, universal e que atendesse às necessidades básicas de cada cidadão.

O País, no entanto, ficou muito tempo preso a essa lógica. Até hoje, a esmagadora maioria dos alunos que obtêm seu diploma de ensino superior pertence às classes A e B, ou seja, faz parte do topo da pirâmide social brasileira. O desenvolvimento do ensino público sempre teve um caráter elitista ao priorizar programas diurnos de longa duração. As instituições de ensino privado, embora preencham um vácuo deixado pelo Estado no ensino superior, sempre copiaram o modelo estatal de ensino e não souberam atingir os alunos de outras classes sociais.

Segundo Carlos Monteiro, o principal motivo desse cenário foi a participação de profi ssionais da escola pública nas instituições privadas: responsáveis pela elaboração e implementação de cursos e pela gestão das instituições, não souberam inovar e atender às reais carências do País. "O resultado é um sistema de ensino em crise, que só agora inicia um novo processo de reformulação da gestão e atendimento às demandas sociais".

 

Modular ou seriado?

Embora não seja regra, uma boa parte dos cursos tecnológicos carrega uma característica bastante moderna: a modularização, cujo modelo permite que alunos adquiram certificações intermediárias, ganhando qualificações específicas que facilitam a colocação em trabalhos, estágios ou até mesmo no próprio empreendimento. "Nosso curso é estruturado dessa forma, pois, além de garantir empregabilidade imediata, permite que nossos alunos retornem para cursar módulos novos", diz Francisco Borges.

No entanto, uma possibilidade subaproveitada por muitas instituições é o oferecimento de módulos independentes de outros cursos para que o aluno de uma graduação possa adquirir conhecimentos específi cos não abordados em seu programa. "As IES precisam encontrar seu modelo ideal. O momento é de inovar e de fornecer novas experiências e possibilidades para que os alunos atinjam seus objetivos", acredita Carlos Monteiro.

 

 

Governo dá mais atenção à graduação tecnológica
Decreto-ponte de reforma universitária estabelece catálogo de cursos tecnológicos. O objetivo é regular modalidade de ensino
 

Em maio de 2006, o Ministério da Educação (MEC) lançou o Catálogo Nacional dos Cursos Superiores de Tecnologia, com 90 denominações para as graduações tecnológicas. Segundo o órgão governamental, a primeira iniciativa no sentido de buscar a regulação das graduações tecnológicas tem como objetivo orientar a sociedade sobre a modalidade de ensino e buscar a ampliação de seu reconhecimento público e social.

Atualmente, os programas existentes no País possuem mais de mil denominações diferentes, embora muitos deles representem a mesma oferta de ensino. Conhecendo essa realidade, o Ministério realizou estudos e reuniões com as diversas áreas profissionais para determinar a denominação oficial dos cursos. Aqueles que não constarem do catálogo poderão ser oferecidos em caráter experimental e submetidos à aprovação da Secretaria de Educação Tecnológica (Setec).

"As novas propostas foram cerceadas e a abertura de cursos em caráter experimental representa um risco muito grande, já que envolve o estabelecimento de uma estrutura física que pode ser perdida, caso a graduação não obtenha reconhecimento no final do processo", Jeferson Rodrigues do Carmo, assessor pedagógico da CM consultoria


 

Segundo Maria Tereza
Franzin, diretora de graduação
do Senac, o catálogo de cursos
é importante e deve abranger a
maior parte das areas nas quais
é possível trabalhar e fornecer
qualifi cação para os alunos

 

Segundo Maria Tereza Franzin, a iniciativa
é importante e deve abranger a maior parte das áreas nas quais é possível trabalhar e fornecer qualificação para os alunos. "É positivo para as IES, que poderão atuar com mais segurança, e para o ministério, que resolveu abrir diálogo com as instituições para regulamentar a oferta de ensino". A diretora de graduação do Senac só teme por alguma falta de flexibilidade na criação de novas áreas, mesmo com a possibilidade de abrir cursos em caráter experimental.

Para Francisco Borges, o catálogo é essencial. "Quando se fala que o curso deve ser focado, algumas instituições exageram e criam programas voltados a especialistas de uma área extremamente específi ca, atendida por um número mínimo de pessoas. Por outro lado, o ministério mantém a possibilidade da criação de cursos fora do catálogo que apresentam uma demanda justificada e fundamentada por pesquisas de mercado. No entanto, o catálogo só tem valor se for trabalhado com base nas experiências das IES", diz.

Na opinião de Lemes do Prado, o catálogo pode aumentar a visibilidade e fornecer maior confi abilidade às graduações tecnológicas frente à sociedade. "O lado positivo é que os programas recebem uma chancela do MEC. Nosso grande receio em relação ao catálogo é que ele seja montado como um processo que passa a regular todo o funcionamento dos cursos, mas, felizmente, isso não tem ocorrido". Independentemente da novidade, o presidente da Anet comemora a nova atitude do MEC em relação ao ensino superior tecnológico. "Nunca houve uma valorização tão grande desse segmento", atesta.

Para Jeferson Rodrigues do Carmo, assessor pedagógico da CM consultoria, o catálogo é, sim, motivo de preocupação. "As novas propostas foram cerceadas e a abertura de cursos em caráter experimental representa um risco muito grande, já que envolve o estabelecimento de uma estrutura física que pode ser perdida, caso a graduação não obtenha reconhecimento no final do processo", justifi ca. "Além disso, o ensino tecnológico surge da necessidade do atendimento de demandas imediatas e necessita de mais agilidade de implementação", completa.

"Acredito que vá haver um bom senso no acolhimento das sugestões da comunidade, uma vez que muitos cursos já em andamento não constam do documento", Jeferson Rodrigues do Carmo, assessor pedagógico da CM consultoria


Para o MEC, flexibilidade permanece a mesma

Andréa de Faria Barros Andrade, coordenadorageral de avaliação da Setec, é uma das principais envolvidas na elaboração do catálogo de cursos, que determina as denominações possíveis para as graduações tecnológicas no País. Em entrevista para a @prender, Andréa fala sobre as intenções do MEC com o documento, assegura que ele não vai engessar a característica dinâmica dessa modalidade de ensino e revela que o trabalho se inspirou em casos internacionais da Europa e de outros países latino-americanos.

@prender: Quais as metas do Ministério com o catálogo de cursos?
Andréa Andrade:
O principal objetivo é orientar os estudantes em sua escolha profissional e as IES em sua oferta. Juntamente, temos como meta aumentar a qualidade das graduações, pois o catálogo passa a ser um referencial básico tanto para avaliação quanto para regulação, e dar visibilidade aos cursos, aumentando a aceitação e o reconhecimento social.

@prender: A atualização desse catálogo terá a dinâmica que a sociedade atual exige?
Andréa Andrade:
Um de nossos maiores desafios foi criar um documento que tivesse essa capacidade. Sua atualização será constante, por meio de requerimentos e consultas públicas. O primeiro processo de atualização ocorre já em agosto e setembro. Se a IES tiver pretensões de abrir um curso em uma área não contemplada pelo catálogo, mas que possui demanda justifi cada, pode solicitar essa inclusão. A outra opção seria fazê-lo em caráter experimental e passar pelo processo normal de reconhecimento.

@prender: O catálogo estabelecerá indicadores para a regulação do ensino tecnológico?
Andréa Andrade:
O que muda é o fato de esses cursos passarem a ter acompanhamento do Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior (Sinaes) em tudo o que esse sistema prevê. Até então, não fazíamos avaliação de egressos, pois era praticamente impossível elaborar provas para 1.200 denominações diferentes de programas. Um exemplo emblemático é Gestão de Eventos, que possuía mais de 15 nomes diferentes, voltados a eventos desportivos, promoção e produção, eventos científicos e até mesmo carnavalescos. Entendemos que todos esses nomes apontam para um mesmo tipo de profissional e estes serão avaliados em conjunto.

 

Os cursos de tecnologia,
por estarem associados à
inovação tecnológica dentro das
características próprias das várias
regiões da nação, são estratégicos
para o governo

 

@prender: A mudança influencia na composição pedagógica do curso?
Andréa Andrade:
Não, o Setec nunca teve essa pretensão. O texto que acompanha cada denominação de curso procurou ilustrar o que faz o profissional, se é autônomo, se trabalha em equipe e outras informações que definem suas competências necessárias. Uma das preocupações foi manter a flexibilidade, fator responsável por dar força às graduações tecnológicas. Temos consciência de que carreiras inovadoras podem surgir e outras podem cair em desuso.

@prender: Houve algum estudo das experiências internacionais para a formulação desse documento?
Andréa Andrade:
Sim, essa foi uma das etapas de nossos estudos. Pesquisamos iniciativas semelhantes na Comunidade Européia, Argentina, Chile, Peru e outros países, e todos já possuem alguma experiência bem-sucedida com catálogos de cursos.

@prender: Que posicionamento tem o ensino tecnológico para a política de educação do governo?
Andréa Andrade:
Eles são estratégicos, por estarem associados à inovação tecnológica dentro das características próprias das várias regiões da nação. Cursos como o de produção de cachaça, viticultura, entre outros, captam a vocação local e promovem o desenvolvimento regional. Esse deve ser o principal enfoque. Além disso, têm potencial para gerar pesquisas nessas novas carreiras, uma vez que o tecnólogo encontrará programas de pós-graduação que atendem suas necessidades e dão vazão a seu desenvolvimento profi ssional e acadêmico.

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