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Revista 33 - Nov/Dez 2006

Mudanças em Pedagogia

Curso responsável por formar professores e gestores para a educação básica sofre alteração e provoca impasse na IES

Da Trama Comunicação

Os cursos de ensino superior destinados à formação de profissionais dos ensinos infantil, fundamental e médio, além de responsáveis por administração e gestão escolar, passaram por uma série de reformulações por parte do Ministério da Educação (MEC) desde que a graduação foi regulamentada no País, em 1939. A mais recente ocorreu em 15 de maio deste ano, e causou certa confusão ao reunificar todas as habilitações de Pedagogia em um único curso e estabelecer que sua carga horária fosse aumentada para 3.200 horas.

Agora, as IES devem entregar novo projeto pedagógico ao MEC, adaptado às Diretrizes Curriculares, prevendo uma série de competências para uma nova licenciatura plena, que habilite o graduado a exercer administração, inspeção, supervisão, orientação e planejamento educacional, além das funções de magistério para o ensino básico. Um dos temas mais controversos, entretanto, é o prazo de integralização do curso. O MEC não o estabeleceu, mas recomendou quatro anos. "As escolas têm receio de alterar esse prazo e espantar candidatos ao curso, que era, tradicionalmente, mais curto", diz o professor Celso Frauches, consultor do Instituto Latino-Americano de Planejamento Educacional.

Além de optar por um tempo de integralização, definir um calendário e cumprir o prazo do MEC (15 de maio de 2007) para a adaptação, as escolas enfrentam outro desafi o: educar a população a respeito da formação mais ampla que a graduação passará a oferecer. "Os possíveis candidatos devem saber que passarão por uma jornada mais longa, mas terão competência para atuar em mais áreas da educação",
completa Frauches.

 

O curso de Normal Superior, antes voltado à formação de professores para a educação infantil e das primeiras séries
do ensino fundamental, ganhou a opção de se transformar em curso de Pedagogia para se adaptar à formação completa desses profissionais

 

Além dessas variantes, o curso de Normal Superior, antes voltado à formação de professores para a educação infantil e das primeiras séries do ensino fundamental, ganha a opção de se transformar em curso de Pedagogia para se adaptar à formação completa desses profi ssionais. O direito dos estudantes que ingressaram antes da nova regulamentação permanece inalterado, mas estes terão a opção de completar seus currículos de acordo com as novas diretrizes para também fazer parte do rol de novos profissionais de pedagogia.


Bons exemplos

Apesar do alvoroço que as mudanças ainda causam, algumas instituições já se encaminharam no sentido de resolver as pendências que a resolução do MEC criou. As Faculdades Integradas de Botucatu são uma delas. Em 2005, a instituição tentava adaptar o curso de Pedagogia às exigências do ministério, ainda com as habilitações, e implementou o curso Normal Superior. Como resultado, viu um esvaziamento do primeiro e uma intensa migração para o segundo.

No início do ano, a nova regra estabelecida pelo ministério colocou a instituição em um impasse: valeria a pena manter dois cursos que formam professores para a mesma área da docência? "Estávamos numa situação em que havia a necessidade de se fazer uma opção entre Normal Superior e Pedagogia. Para isso, precisávamos de anuência e migração dos alunos para este segundo curso", revela Waldir Gonzaga Paixão Júnior, coordenador de Pedagogia da instituição.

Nessa situação, a alternativa encontrada pela instituição foi realizar um trabalho de conscientização sobre as novas Diretrizes Curriculares, estabelecidas para Pedagogia, mostrando aos alunos as vantagens de migrar, fornecendo-os essa opção. "O que nos ajudou foi que os próprios alunos formaram um grupo de estudo para estudar as DCNs, visando a questionar seus aspectos positivos e negativos. Eles chegaram a um consenso e optaram pela migração", revela.

O resultado foi a unifi cação do Normal e da Pedagogia, num curso de 3.200 horas, com oito semestres, com uma adesão unânime dos envolvidos no processo, que incluiu a coordenação e representantes de classe.

A Universidade Cidade de São Paulo (Unicid) já manteve um curso como o proposto atualmente pela resolução do ministério. Em 2000, a instituição iniciou a elaboração do Programa de Formação de Professores, que reunia, além de Pedagogia, todas as licenciaturas, com turmas misturadas em disciplinas comuns. Pedagogia tinha dois anos de duração, com aulas aos sábados, e reunia todas as habilitações com a idéia de aumentar a empregabilidade. "Optamos por esse modelo para cumprir o objetivo de fornecer sólida formação generalista para os estudantes, reproduzindo nas salas de aula o ambiente de uma escola, com diversos tipos de profi ssionais da educação", afirma Denise Aparecida Campos, pró-reitora adjunta de ensino da Unicid.

A reunião das habilitações ganhava ainda mais importância no programa, levando em
consideração o entendimento de que o docente de hoje deve ser um profissional completo: necessita ter habilidades de gestão e articulação nos diversos setores de uma escola.

Uma resolução do MEC, em 2002, atrapalhou os planos do programa da Unicid: o órgão determinou a separação dos cursos por nível de escolaridade e a divisão entre docência e gestão escolar. A solução da instituição para manter o caráter do programa de formação de professores foi manter as matérias do eixo comum, integrando todos os alunos, separando as demais. No caso da gestão, a opção foi pelo estabelecimento de uma pós-graduação na área. "Ao invés de estender a graduação por 4 anos, preferimos proporcionar ao estudante a perspectiva da graduação continuada para a aquisição de mais estas competências", diz Denise.

"As instituições devem se questionar que professor vão formar e como estes serão capazes de responder ao desafio de trazer avanços para a educação brasileira", professor Raulino Tramontin, consultor da CM Consultoria


 

A alternativa encontrada pelas Faculdades Intergradas de Botucatu foi realizar um trabalho de conscientização sobre as novas Diretrizes Curriculares, estabelecidas para pedagogia, mostrando aos alunos as vantagens de migrar, fornecendo-os essa opção.

 

Com a atual resolução do MEC, a instituição só precisou voltar para a proposta de 2001, sem maiores dores de cabeça para realizar a integração. "Antes disso, o programa já tinha um caráter de formação geral do pedagogo. O curso de dois anos, estabelecido em 2001, foi fundamental para esse momento, pois já estava inserido em um programa voltado à formação de docentes. É por isso que não vivemos essa crise", revela a pró-reitora.

Em vez de fazer um curso de quatro anos, como o recomendado pelo MEC, a Unicid optou por realizá-lo em três anos, aplicando uma carga horária semanal mais intensa, com aulas aos sábados. Segundo Denise, a decisão de manter essa duração está ligada à idéia atual de evitar o prolongamento desnecessário das graduações, atraindo alunos e tornando mais veloz sua entrada no mercado de trabalho.

 

"As instituições estão acomodadas com a gra-duação em três anos, pois essa duração é um chamariz de alunos. Entre-tanto a massa de habilidades e competências previstas nas diretrizes curriculares são muito gran-des para esse curto período", Raulino Tramontin, consultor da CM Consultoria

 

O professor que o Brasil forma

As discussões a respeito das novas regulamentações do MEC para o curso de Pedagogia são importantes, mas a de maior relevância no Brasil de hoje é o tipo de professor que esta graduação forma. Sabe-se que, atualmente, Pedagogia encontra-se desvalorizada e tem pouca procura. Quase um terço das vagas oferecidas pelas IES brasileiras fi ca ocioso e a taxa de conclusão do curso alcança apenas 25% das vagas ofertadas.

Segundo o professor Raulino Tramontin, consultor sênior da CM Consultoria, cabe às instituições, antes mesmo de se preocuparem com a questão de se adaptar às exigências do MEC, questionarem o papel de seus cursos e cobrarem dos órgãos públicos maior valorização para os profi ssionais que atuam na área. "A baixa base salarial é uma das causas dessa desvalorização. Poucos profi ssionais dedicam-se ao curso por vocação, pois não encontrarão contrapartida quando estiverem atuando no mercado."

Para o consultor, o momento deveria ser aproveitado para que a nova Pedagogia fosse capaz de mudar a cabeça do professor e capacitá-lo com um conjunto de habilidades e competências, por meio de uma mudança estrutural. "Antes de tudo, as instituições devem se questionar que professor vão formar e como estes serão capazes de responder ao desafi o de trazer avanços para a educação brasileira", diz Tramontin.

O profi ssional também defende uma duração maior do curso, pois sua clientela normalmente é formada por profi ssionais que trabalham durante o dia e pouco tempo têm para o aprendizado. "Sabemos que somente com o período em que o aluno está na faculdade, ele não aprende. As instituições estão acomodadas com a graduação em três anos, pois essa duração é um chamariz de alunos. Entretanto a massa de habilidades e competências previstas nas diretrizes curriculares são muito grandes para esse curto período", opina.

Tramontin também questiona que perfil de professor as escolas escolherão para o novo curso, se esse docente será capaz de transmitir uma visão de mundo e de homem, e de que forma é possível resgatar a auto-estima e "vender" Pedagogia como instrumento de formação do professor ideal. "Ainda não há resposta para esses questionamentos, as instituições devem procurá-las, realizando um trabalho que saia do escopo administrativo e entre no conceitual", afirma.

Celso Frauches acrescenta que, para formar o professor polivalente, capaz de lidar com as novas tecnologias e de "abrir" a cabeça de seus alunos para o conhecimento, as escolas terão um longo trabalho pela frente, já que a maioria ainda não atinge esse objetivo. "Esse é um dos grandes desafi os das instituições de ensino, frente às novas diretrizes", conclui.

 

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