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Revista 33 - Nov/Dez 2006

EAD: oportunidade e ameaça

Mercado de EAD cresce exponencialmente no Brasil e mostra potencial de responder aos desafios do baixo custo e interiorização do ensino. Para concorrer no setor, é necessário conhecimento de mercado e muito investimento a fim de garantir a atuação em escala

 Por Trama Comunicação 

Há pouco tempo, o ensino a distância (EAD) possuía pouco crédito como um modelo de educação para cursos superiores e de pós-graduação. Isso ocorria porque os projetos ainda engatinhavam e o Brasil ainda não tinha uma estrutura tecnológica capaz de implementar a modalidade em escala que compensasse os investimentos. No entanto, aqueles que apostaram no crescimento do EAD e se planejaram para a expansão, aproveitando todas as suas possibilidades, hoje colhem bons frutos, uma vez que as instituições que atuam na área mantêm mais de 1 milhão de alunos.

Os especialistas confi rmam que a tendência é de manutenção desse crescimento, de forma exponencial. Somente o setor público criará cerca de 90 mil novas vagas em 2007 por meio de parceria com 25 universidades federais e estaduais, no projeto Universidade Aberta do Brasil (UAB). Serão atendidos 17 Estados e o Distrito Federal. "No setor privado, a previsão é que as escolas que já desenvolvem metodologias de EAD com sucesso cresçam de 200% a 300% nos próximos anos", afi rma o professor Carlos Monteiro, diretor-presidente da CM Consultoria.

Até o momento, o caráter fl exível, a expansibilidade e, em alguns casos, o baixo custo, foram alguns diferenciais que possibilitaram os números que o EAD vem apresentando. Esses fatores atraíram um público que tinha disposição para realizar um curso superior, mas não o fazia por falta de tempo, dinheiro ou IES próxima a sua residência, que oferecesse determinada graduação. Hoje, há diversas opções para essas pessoas em termos de graduação, desde as tradicionais, até as tecnológicas de menor duração. Segundo especialistas, a única restrição é para programas que necessitam de laboratórios para sua aplicação. "Devemos trabalhar com aqueles cursos que a tecnologia nos permite, no qual possamos praticar auto-estudo e interação por internet", diz Alfredo Pires, diretor de negócios da Uninter, grupo educacional sediado em Curitiba.

Para o professor Monteiro, daqui para frente farão sucesso aquelas escolas que conseguirem levar ensino para os mais necessitados, expandindo ainda mais a possibilidade de abrangência do EAD e atingindo as classes C, D e E. "Significa cobrar mensalidades de R$50. Isso só é possível para aqueles que trabalharem com uma escala muito grande, algo em torno de 1 milhão de alunos." Outro fator de sucesso apontado pelo professor é foco em determinada área, ou seja, a criação de poucos cursos para muitos alunos.

Se é grande a oportunidade para alguns grupos e universidades, uma ameaça apresenta-se para muitas instituições presenciais, principalmente as pequenas: concorrer com os custos do EAD, com cursos sem diferenciais, é praticamente um atestado de óbito. Nesse momento de consolidação do setor, cada um deve buscar a melhor forma de se destacar no mercado, apostando em nichos ou projetos notáveis. Caso contrário, estará fadado à falência.

A Revista @prender entrevistou alguns dos principais atores do setor, buscou detectar como as instituições fazem EAD com qualidade e identificou a estratégia dos novos players, que entram no mercado com força e devem repetir a expansão apresentado pelos concorrentes.

Crescimento exponencial
Instituições de ensino utilizam EAD para alavancar negócios e caminhar rumo à expansão
 
 

IES começaram a
se destacar no início
do terceiro milênio com
projetos pedagógicos
próprios para EAD,
unidades de negócios
separadas para se
desenvolver nessa
modalidade de ensino e
um crescimento muito
rápido no número de
alunos

 

Os primeiros anos do terceiro milênio foram marcados, no setor da educação, pelo início de planejamentos que visavam à expansão do ensino superior em patamares que poucos imaginavam. Algumas instituições começaram a se destacar com projetos pedagógicos próprios para EAD, unidades de negócios separadas para se desenvolver nessa modalidade de ensino e um crescimento muito rápido no número de alunos, com base na instauração de pólos nos mais distantes locais do País, com transmissão de aulas via satélite e diversas formas de apoio nas atividades assíncronas.

A edição 31 da Revista @prender (julho-agosto) já trazia um case da educação a distância da Universidade do Oeste do Paraná (Unopar), um dos mais emblemáticos do setor. Com o EAD, a IES ampliou em mais de 500% seu número de alunos no período de três anos. No início de 2003, havia somente ensino presencial e 11 mil alunos. Hoje, são 80 mil, sendo 68 mil somente no EAD. Esses números foram atingidos graças à estratégia de apostar em cursos com grande demanda, como aqueles voltados à formação de professores, instalando-se em pontos onde o acesso às faculdades é complicado para os estudantes. Com essas estratégias, a escola introduziu 313 pólos regionais e mais de 980 salas atendidas por seu sistema de transmissão de aulas via satélite.

"Nós vamos para onde, efetivamente, há escassez de ensino superior. Nosso alcance geográfi co e o menor preço que podemos cobrar, graças à escala, permitem essa expansão", Alfredo Pires, diretor de novos negócios do grupo Uninter

A Unopar Virtual é líder no setor, mas já é seguida de perto por outros players com o mesmo potencial de crescimento. Um deles é a Rede Ed-Sat, mantida pelo grupo educacional paranaense Uninter, que iniciou a elaboração de projetos em 2002 e implementou suas primeiras graduações a distância em 2004, no Estado do Paraná. Foi a primeira instituição brasileira a ser credenciada pelo Ministério da Educação (MEC) para a oferta de cursos superiores de tecnologia.

 

EAD no Brasil tem mais de cem anos

 

O primeiro registro que
há no Brasil de Ensino
a Distância data de
1904, quando escolas
internacionais privadas ofereciam cursos pagos para alunos brasileiros, por correspondência.

  

O ensino a distância com utilização de tecnologias como internet e satélites começou apenas na década de 1990, mas sua história no Brasil é centenária. O primeiro registro que há no País dessa modalidade de ensino data de 1904, quando escolas internacionais privadas ofereciam cursos pagos para alunos brasileiros, por correspondência.

Trinta anos depois, em 1934, surge a primeira iniciativa genuinamente brasileira: Edgard Roquete- Pinto, um dos grandes nomes da fundação do Rádio no Brasil, instalou a Rádio-Escola Municipal no Rio. Os alunos tinham acesso prévio a folhetos e esquemas de aulas, acompanhavam as transmissões da aula pela Rádio e também recebiam apoio por correspondência.

Em 1939, foi fundado o Instituto Universal Brasileiro, em São Paulo. A história da instituição foi marcada pela oferta de diversos programas profissionalizantes, que ofereciam aos alunos a possibilidade de ganhar uma qualifi cação profi ssional e uma vaga de emprego. A escola foi bastante popular também com seus cursos de supletivo a distância, que até hoje preparam alunos para o exame de suplência mantido pelas secretarias estaduais de educação.

Na década de 1970, o ensino a distância foi fortalecido com iniciativas de emissoras de televisão para a implementação de supletivos. Naquela época, a TV já tinha grande alcance e os programas tiveram muito sucesso entre pessoas sem tempo para se dedicar a uma escola presencial de suplência. Depois disso, avanços maiores foram sentidos somente na década de 1990, quando o EAD passou a ser visto como aliado de empresas que precisavam realizar reciclagem de milhares de profi ssionais, com o menor custo possível.

Em 1996, a Universidade Federal de Santa Catarina deu um passo à frente e lançou a pós-graduação em Engenharia de Produção (mestrado e doutorado), envolvendo uma rede de oito universidades estatais e privadas, além de diversas empresas de porte tecnológico signifi cativo. A partir desse momento, instituições privadas de diversos Estados já estudavam a implementação de seus próprios programas de EAD e iniciou-se o processo para chegarmos ao estágio atual.

 

Em 2005, a EdSat iniciou sua expansão pelo Brasil e hoje está presente em 450 municípios brasileiros. Para Alfredo Pires, diretor de novos negócios do grupo Uninter, cada município representa um pólo, uma vez que muita gente se desloca de maiores distâncias para as salas de aula pelo fato de a aula ser uma vez por semana. Todos eles recebem aulas ao vivo de dois estúdios em Curitiba, tiram dúvidas, têm suporte on-line dos professores- tutores e interagem com colegas também pela internet na produção de trabalhos. Durante as aulas, as dúvidas podem ser tiradas no momento em que surgem: o aluno telefona para um número gratuito e fala com uma equipe de tutoria, que filtra perguntas. Elas são respondidas em tempo real, dependendo de sua pertinência. "Para não atrapalhar o andamento das aulas, não respondemos dúvidas elementares, que são tiradas pela internet, mas sim questões conceituais, que podem ter gerado dúvidas em um grande número de alunos. Essa interatividade é um diferencial importante em Ensino a Distância", afirma Pires.

O diretor da Uninter atribui o crescimento da instituição de maneira exponencial a diversos fatores. Um deles é a demanda reprimida que há no Brasil. As faculdades concentram-se em locais populosos e os lugares mais distantes sentem carência de ensino. "Com o EAD, posso me instalar em locais de baixa renda e com população menor. Nós vamos para onde, efetivamente, há escassez de ensino superior. Então, nosso alcance geográfico e o menor preço que podemos cobrar, graças à escala, permitem essa expansão", pontua.

Outra instituição que vem investindo no segmento de ensino a distância é a Faculdade de Tecnologia e Ciências (FTC), de Vitória da Conquista (BA). A primeira tentativa da IES de entrar no mercado não deu muito certo em função do modelo de negócios. "A FTC percebeu que EAD era o futuro do ensino, mas ‘quebrou a cara' ao montar um curso muito caro, baseado na estrutura presencial. Posteriormente, foi feito um corte de custos, e a gestão da unidade virtual foi separada da presencial. Assim, a entidade decolou, chegando a 32 mil alunos em 2006", revela Humberto Santos Filho, diretor geral da FTC.

 

A FTC precisou de duas
tentativas para lograr sucesso
no mercado de EAD. Os ganhos vieram quando a instituição realizou um corte de custos e separou a gestão das unidades virtual e presencial

 

Com atuação no Estado da Bahia, o modelo utilizado pela FTC também é a distribuição de aulas via satélite para seus diversos pólos, com apoio para os alunos pela internet e com material impresso. Para atingir populações não atendidas do interior do Estado, com poder aquisitivo menor, as mensalidades custam em torno de R$ 250, possibilitando o acesso das camadas mais pobres. Embora só atue na Bahia, a instituição tem pretensões de se nacionalizar, estabelecendo-se como mais um forte concorrente nesse mercado brasileiro.

Na tendência de nacionalização, a Universidade Luterana do Brasil (Ulbra), sediada em Canoas, que acaba de ser credenciada para atuar em todo o Brasil, também se inseriu entre os grandes players do setor ao explorar mercados com pouco ensino superior e baixo poder aquisitivo. A instituição possuía, no início de 2006, 26 mil estudantes de EAD, espalhados em 600 pólos presenciais, mas a expectativa é de uma expansão muito grande no próximo ano. Somente no curso de Pedagogia, ingressarão 20 mil novos alunos.

Ronaldo Mota anuncia planos de expansão para Universidade Aberta do Brasil: a idéia é atender 90 mil alunos já em 2007


 

UAB é aposta do governo federal

 UAB funcionará baseado em parcerias e
consórcios com municípios e estados para obtenção de infra-estrutura adequada.

O sistema de EAD do governo, chamado de Universidade Aberta do Brasil (UAB), pretende ser um dos principais vetores para popularização de ensino superior no Brasil. Diante da impossibilidade de expandir exponencialmente as vagas do ensino superior presencial na rede pública de forma a atender um maior número de jovens, o MEC apostou suas fichas nesse projeto e pretende oferecer 90 mil vagas a partir de 2007.

A UAB funcionará como uma rede em mais de 300 pólos presentes em todos os Estados brasileiros, com cursos oferecidos em parceria com prefeituras locais, que se comprometeram a fornecer infra-estrutura necessária para as atividades presenciais, além de bibliotecas para pesquisas e centros de informação. O investimento projetado para 2007 é de R$ 175 milhões e é direcionado para os cursos de acordo com a demanda da região de cada pólo.

Em setembro deste ano, a UAB começou a ser testada por meio de um curso-piloto a distância de Administração. Oitenta e sete pólos participam dessa etapa e deverão fornecer real dimensão sobre as necessidades do curso e as melhorias que podem ser implementadas. Para Ronaldo Mota, secretário de EAD, a principal carência do Brasil ainda é a infra-estrutura tecnológica, problema que deve ser solucionado graças aos consórcios e parcerias com municípios e Estados.

A experiência é baseada em modelos bem-sucedidos, aplicados nos Estados Unidos e em alguns dos principais países europeus, como Inglaterra, Espanha, Noruega e Alemanha.

 
Novos entrantes
Mercado de EAD ganhará fortes concorrentes a partir de 2007
 
 

Com o sucesso de algumas
escolas, o EAD passou a ser visto como excelente oportunidade de negócios para universidades que já estão consolidadas no
presencial, mas ainda buscam a expansão

 

Com o sucesso de algumas escolas, o EAD passou a ser visto como excelente oportunidade
de negócios para universidades que já estão consolidadas no presencial, mas ainda buscam a expansão. Geralmente, são instituições que se prepararam ao longo de vários anos com experiências de disciplinas a distância em cursos presenciais e que se sentem prontas a ingressar nesse novo mercado.

Uma delas é a Universidade Metodista de São Paulo, que vem experimentando a aplicação de disciplinas a distância e, nos últimos seis anos, oferece cursos de extensão e especialização por meio dessa modalidade. Neste ano, após ser autorizada pelo MEC, a instituição iniciou graduações tecnológicas, licenciaturas e bacharelados, seguindo o modelo que reúne aulas presenciais via satélite, apoio pela internet e material impresso. "Passamos os últimos seis anos realizando estudos e amadurecendo a idéia de entrar defi nitivamente nesse mercado. Antes, tivemos de passar por um processo de formação docente, visando a capacitá-los para a utilização de novas tecnologias para um diálogo pedagógico eficiente", revela Luciano Sathler, diretor de Educação Continuada e a Distância.

Em 2006, a Metodista restringiu-se a São Paulo, mas pretende, em 2007, chegar a todo o país, apostando em um público mais maduro, formado por profissionais atuantes no mercado. "O projeto deste ano foi um piloto, por isso estamos com 750 alunos. Nossa meta para o primeiro semestre do ano que vem é chegar a 5 mil alunos e manter, posteriormente, um crescimento gradativo", completa.

Outros entrantes dispostos a conquistar mercado são grupos educacionais bem estabelecidos, com grande capilaridade, que iniciaram recentemente a incursão nessa área. O COC, sediado em Ribeirão Preto, começou suas atividades de ensino superior a distancia em agosto de 2006, com programas de licenciatura e aguarda aprovação do MEC para a abertura de bacharelados. "Nossa idéia de crescimento é ter, no fi nal de 2007, 500 pólos para que, em 2008, tenhamos captado de 200 mil a 250 mil alunos. Não é um número alto se considerarmos os índices de hoje. O crescimento em EAD é vertiginoso e continuará assim por algum tempo", revela o professor Durval Antunes Filho, diretor-geral da UniCOC.

O perfi l dos alunos procurados pelo COC não é muito diferente das outras instituições: são pessoas que não tiveram oportunidade de estudar ou que sentem necessidade de obter respaldo acadêmico para avançar profissionalmente. "Esse último grupo tem no EAD um grande aliado, pois tem dificuldades para se locomover e pode dedicar qualquer horário que esteja sobrando a seus estudos.

Para Antunes Filho, um dos grandes diferenciais do sistema de ensino do COC é o canal de satélite bidirecional. As telesalas tanto recebem quanto enviam sinais, possibilitando que os alunos também exponham suas dúvidas ao vivo, para os diversos pólos. "Somos os pioneiros na aposta desse tipo de tecnologia. Em 2007, nossos concorrentes devem observar o sucesso e aplicar a mesma tecnologia", afirma o professor Antunes, mostrando concretamente o processo de consolidação do setor.


Novato em ensino superior firma parceria e pretende conquistar mercado

 

Microlins pretende usar
capilaridade e experiência de seu parceiro para se tornar um dos líderes do setor

 

A Microlins é um dos entrantes no mercado de EAD que aposta em um grande crescimento e se apresenta como um concorrente de peso no setor, em parceria com o projeto de ensino a distância da Universidade de Uberaba (Uniube). A primeira empresa é uma rede de cursos livres profissionalizantes, que possui cerca de 680 franqueados em todo o país. A segunda iniciou programas de EAD em 2000 e hoje conta com pólos em todo o Brasil. A união da capilaridade da primeira rede com o conhecimento de mercado da segunda deu origem a um player que promete transformar a parceria em uma das principais empresas do setor.

A diferença desse para os demais grandes fornecedores de ensino a distância está no fato de que o satélite é utilizado não para entregar aulas aos alunos, mas para capacitar os profi ssionais (educadores e administradores) que vão trabalhar nos diversos pólos. O curso em si é ministrado nos moldes que a Uniube já aplicava: por meio de aulas presenciais nos pólos, material impresso e apoio via internet. "Desejávamos entrar no EAD e procuramos um parceiro que nos trouxesse conteúdos educacionais de primeira linha. Não viemos para reinventar a Educação a Distância, mas sim para utilizar nossa capilaridade e tecnologia em prol de sua expansão", revela Renato Claro, diretor de novos negócios da Holding que detém a Microlins.

Antes do ensino superior, a Microlins já trabalhava com ensino a distância por meio da ProfSat, a empresa do grupo voltada ao fornecimento de conteúdo via satélite. São cursos que vão desde preparatórios para o exame da OAB até contabilidade, voltados para profi ssionais que precisam de determinados conceitos dessa área.

Para justifi car a escolha por um método que não utiliza satélite ou internet em atividades síncronas, Renato cita a experiência do Instituto Universal Brasileiro. "A mídia que esse sistema de ensino usava sempre foi o papel e trabalharemos como essa instituição, utilizando a internet como canal de apoio. Preferimos essa forma, pois tínhamos dúvidas se conseguiríamos trabalhar retenção de alunos em cursos de 4 anos via satélite e internet. Em programas mais rápidos, isso é possível, mas em longo prazo, é mais complicado garantir a absorção do conhecimento por parte do estudante via satélite", diz.

Para que uma entidade se candidate a ser um dos pólos para essa nova parceria de ensino não é necessário ser franqueado Microlins, mas as franquias que tiverem um histórico de sucesso e estiverem mais consolidadas terão preferência. "Estamos escolhendo a dedo os melhores franqueados, pois o nível de exigência para o ensino superior passa a ser muito maior. Outras entidades do mercado, como colégios que passam períodos ociosos podem nos procurar e também se transformar em pólo", afirma Renato.

A Microlins diz garantir sua qualidade, pois entrega toda a responsabilidade por fornecimento de conteúdo para a universidade parceira, assim como os programas de treinamento dos monitores. "Conforme sentimos necessidade do mercado, apresentamos essa demanda a Uniube, que nos entrega o conteúdo em determinado prazo. Se precisarmos de um curso tecnológico em segurança do trabalho, por exemplo, esse é o processo", atesta Renato.

A grande vantagem para a instituição mineira é a diminuição radical de seus custos baseados na escala de alunos que poderá captar. Segundo Renato, o valor que a Microlins agrega à Uniube é a capacidade de expansão.

O diretor da Microlins diz que a entidade está bem preparada para enfrentar a concorrência, por dominar a atividade de gestão de uma rede de negócios. "Vimos que o maior problema das escolas que aplicam EAD é a dificuldade que elas têm para gerenciar uma rede distribuída, principalmente quando o número de alunos começa a fi car muito grande. E esse é nosso negócio", afirma.

O brasileiro, de uma forma geral, sempre apresentou preconceito com relação ao EAD. Há algum tempo, sugerir que alguém fez um curso por correspondência para adquirir determinada competência era considerado uma ofensa, como se não fosse uma forma adequada de adquirir aprendizado. O cenário brasileiro no setor de EAD e as iniciativas governamentais no sentido de popularizar essa modalidade de ensino vêm derrubando um pouco desses preconceitos, mas ainda é necessário conscientizar os potenciais alunos sobre como é possível garantir sua qualidade.

 

A criação de atividades
colaborativas e de pesquisa,
fazem do discente um
pesquisador e não somente um ouvinte, como era comum nas formas tradicionais de ensino

 

Segundo José Manuel Moran, na sociedade atual, uma coisa é fundamental, seja no ensino presencial seja a distância: a criação de atividades colaborativas e de pesquisa, fazendo do discente um pesquisador e não somente um ouvinte, como era comum nas formas tradicionais de ensino. O aluno deve abandonar
aquela cultura de esperar que o mestre entregue todos os conhecimentos necessários, e mudar isso depende muito da ação dos professores e tutores. "Para atingirmos esse ponto na Sumaré, aplicamos constantemente ofi cinas sobre como trabalhar essas atividades e fornecemos aos estudantes um semestre de informática na educação, para que eles tenham o domínio da tecnologia no aprendizado a distância", diz.

Para Moran, o maior desafio que se apresenta para instituições que trabalham em escala é garantir a qualidade para todos os alunos, uma vez que, com o crescimento exponencial de estudantes, a tendência é que se reduza a atenção para cada um deles. Moran acredita que um dos melhores modelos de EAD é o aplicado pelo governo federal na Universidade Aberta do Brasil. Com apoio de prefeituras, o estudante tem acesso a estruturas completas de informática, biblioteca e professores orientadores por perto. "É a replicação de alguns dos modelos mais bem-sucedidos do mundo, como o da Universidade Aberta da Catalunha, na Espanha e o da Phoenix, nos Estados Unidos. O futuro aponta para eles", opina.

Durval Antunes Filho, diretor-geral do COC, afi rma que para obter qualidade deve-se levar em consideração que a geração de 1980 é formada por jovens que trabalham muito bem com a questão da internet e estão acostumados a buscar o conhecimento de forma individual, menos dependente de um docente presencial. "Paulo Freire já dizia que o estudante tem de ser o agente ativo no processo de aquisição de conhecimento, enquanto o professor é o passivo. No EAD, existem instrumentos para que essa idéia seja aplicada em sua plenitude. Claro que, mesmo assim, as pessoas se desestimulam se não tiverem acompanhamento bastante pontual
e sério durante o processo", afirma.

 

"As instituições
que conseguirem
adaptar seu conteúdo
ao EAD com a
qualidade da qual os
alunos necessitam
multiplicam suas
possibilidades de
atuação e sucesso
no ensino superior",
Carlos Monteiro,
diretor-presidente da
CM Consultoria

 

Alfredo Pires, diretor da Uninter, vai mais longe: acredita que o EAD, algumas vezes, tem qualidade superior ao ensino tradicional. "Em nosso curso, por exemplo, os alunos são estimulados a ler um livro por disciplina e quase todos adquirem uma grande carga de leitura. Acredito que esse fator aumenta a eficiência do ensino superior a distância e garante sua qualidade e credibilidade. Prova disso é que algumas de nossas graduações chegam a ter dois candidatos por vaga, como no caso da Tecnologia em Gestão de Negócios", atesta.

Para garantir a qualidade, a Metodista aposta em um programa permanente de capacitação profissional docente e a consciência do professor de que ele é um articulador do conhecimento. "Além disso, temos uma avaliação, dentro dos moldes da avaliação institucional do MEC, realizada trimestralmente. No EAD é muito mais fácil realizar essa atividade, pois suas aulas estão expostas", conta Luciano Sathler. O diretor de EAD da Metodista acredita também que os modelos baseados em interação são os que sobreviverão, pois o brasileiro necessita desse elemento. "É diferente do Europeu que está acostumado à leitura intensiva. Precisamos de qualidade da interação, do planejamento das aulas e do atendimento ao aluno", completa.

Renato Claro, da Microlins, alerta que há uma etapa essencial para a qualidade: o processo seletivo, que deve captar aqueles alunos dispostos a se dedicar ao curso e não os que querem apenas receber um diploma. "Se o aluno não se dedicar, não vai ter progressão. Assim também ajudamos a acabar com aquela idéia de que EAD é uma máquina de fazer diplomas, que não é necessário estudar", conclui.

 

Instituições presenciais podem se
benefi ciar de cursos híbridos

Se a economia em escala permite que instituições ofereçam EAD por um custo mais baixo, o ensino híbrido, que combina presencial com Ensino a Distância, também é capaz de reduzir custos em instituições tradicionais, contando com a vantagem de inserir alunos e professores em um novo ambiente tecnológico capaz de promover a construção do conhecimento.

Para Carlos Monteiro, diretor-presidente da CM Consultoria, a dicotomia entre EAD e presencial deve diminuir cada vez mais, abrindo espaço para esse tipo de curso. "O próprio MEC atestou isso quando estabeleceu a possibilidade de aplicar 20% de EAD em cursos tradicionais e confirma agora com a idéia de mudar esse percentual para 50%. As instituições que conseguirem adaptar seu conteúdo ao EAD com a qualidade da qual os alunos necessitam multiplicam suas possibilidades de atuação e sucesso no setor", afirma.

Para José Manuel Moran, diretor-acadêmico das Faculdades Sumaré, a forma mais adequada de trabalhar esse ensino híbrido é focar a parte a distância em atividades de pesquisa e projetos realizados por pequenos grupos de forma colaborativa. "Na Sumaré, não é optativo: todos participam dessas atividades. Assim, criamos a cultura do semipresencial" atesta.

O EAD dobrou a capacidade da instituição. A redução da carga horária e a possibilidade de organização de três turnos de manhã e dois à noite baixaram a mensalidade para um custo acessível e fazem parte de um conjunto de estratégias para facilitar o acesso dos estudantes de menor renda ao ensino superior. "Estamos também oferecendo um computador por um preço bem abaixo do mercado para todos os nossos discentes, para que eles tenham facilidade de aproveitar todos os recursos do EAD", revela Moran.

Atualmente, somente 20% das atividades ocorrem a distância, mas a Sumaré aguarda autorização do MEC para poder aumentar essa margem para até 50%. "Quem mora perto e ainda não adquiriu a autonomia de estudar totalmente sozinho entende que essa é uma opção muito melhor do que o curso a distância, pois terá ensino a um custo acessível e com um sólido apoio presencial. Alunos que estão na faixa etária da graduação precisam muito manter contato físico, encontrar pessoas e criar relacionamentos", acrescenta o diretor-acadêmico.

 

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